A cuidadora que quis cuidar dos filhos

A cuidadora que quis cuidar dos filhos

Os cliques acontecem nas nossas vidas em momentos distintos.

E agora, vou contar aqui uma história de uma pessoa muito próxima, que foi extremamente corajosa ao mostrar o que queria, arriscou, e, curiosamente, enquanto eu vivia o meu melhor momento profissional e trabalhava levando a Eva, ainda bebê, no escritório da Ana Maria Braga todos os dias , ela lidava com seu maior dilema.

A Janaina engravidou cedo, teve o primeiro filho com 19 e o segundo com 20. Aos 23, em São Paulo, cruzou meu caminho. Escolheu uma das profissões mais requisitadas do mercado – a de cuidadora de crianças (profissão conhecida como babá) e chegou a mim quando eu, ainda grávida, já procurava alguém que me ajudasse com a Eva quando voltasse a trabalhar.

Seus filhos, Igor e Pedro, estavam com 2 e 3 anos, e ela estava disposta a trabalhar oito horas por dia para garantir o sustento deles. Foi assim que nos conhecemos. Foi assim que ela se tornou parte da minha vida.

A Janaina era parte vital do funcionamento das coisas quando voltei da licença maternidade. Ela ia comigo ao escritório, ficava ali com minha filha enquanto eu trabalhava por perto e amamentava em livre demanda, e cuidava da Eva com todo o carinho que poderia ter por uma criança.

Mas Janaina também tinha filhos pequenos. E ficava o dia todo longe deles. E cuidando de uma outra criança.

Com o tempo, foi percebendo que não conseguia lidar com aquela situação. Se estava bom pra mim, levar a Eva todos os dias comigo para o trabalho, para ela era a coisa mais difícil do mundo ver seus filhos só ao anoitecer.
E eu só fui me dar conta disso quando ela me explicou porque queria parar de trabalhar.

Tinha vontade de ficar com eles, de busca-los na escola, de saber como foi o dia. Meu coração ficava muito apertado.”, conta.

Na época, entendi sua posição. Mas não tão bem quanto quando passei a deixar a Eva na escola o dia inteiro e sofri o mesmo tanto que ela deve ter sofrido. Talvez um pouco menos, porque eu não ficava com uma criança no colo, lembrando que o meu estava na escolinha.

Como nos tornamos amigas, acompanhei o tempo que ela ficou em casa e conseguimos um trabalho por meio período. Só que o tempo foi passando e as coisas foram mudando. Passou a trabalhar o dia todo novamente e – quando nos reencontramos, eu já estava fora do mercado de trabalho, tinha vivido uma experiência intensa de maternidade com as duas filhas em casa, e procurava alguma atividade que pudesse me trazer realização pessoal, sanidade mental e remuneração.

Foi assim que Janaina voltou às nossas vidas.
Hoje nosso combinado permite que eu trabalhe por perto da Aurora, minha filha mais nova, enquanto Eva está na escola, mas que ela saia no começo da tarde para pegar seus filhos na escola, passear com eles, e ter um convívio mais próximo, ou os traga para minha casa quando tiver vontade. Mesmo que já estejam com 8 e 9 anos.

Quis trazer esta história para percebermos como é importante olharmos para a questão como um todo. Só vai dar certo pra todo mundo quando olharmos, com atenção, para todas as mães de nossas redes de contato. Porque a escolha da Jana impactou diretamente na minha – e eu teria sido injusta se, depois disso, passasse a procurar uma cuidadora sem filhos para não correr o mesmo risco.

Ou seja – temos que nos ajudar mutuamente para que todas consigam ter uma convivência adequada com os filhos.

As mulheres não sabem realmente o que querem. Têm medo de sair do emprego e têm medo de ficar em casa e não conseguir nada e acabam não tomando atitude nenhuma e se tornando vitimas de uma situação que elas podem mudar”, diz Janaina.

E a Janaina é parte do Mãe At Work e permitiu que eu contasse sua história aqui para que mostrássemos que cada mulher tem o direito de buscar alternativas para encontrar uma solução satisfatória – que não agrida os filhos. Que não agrida ela mesma.

Cinthia Dalpino

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