Os inimigos da amamentação

Os inimigos da amamentação

O nascimento de um filho é um momento único na vida da família. Mas não é sempre que o casal consegue entrar em sintonia imediata com o bebê, já que alguns fatores (como as visitas constantes logo que o bebê nasce por exemplo) impedem aquele momento a sós, de namoro, que propicia o nascimento da intimidade. Bebê de colo em colo para a foto e finalmente quando chega o dia de ir pra casa, o casal se vê diante de um pequeno desconhecido. Então, como num piscar de olhos implanta-se o chip da insegurança.

E muita coisa pode rolar a partir de então:

Presenças inconvenientes

“Quando cheguei em casa com meu filho, não consegui ficar um minuto sozinha com ele. A minha sogra se instalou em casa sem ser convidada e passou a interferir em toda a nossa rotina. Ela dizia que queria ajudar, mas acabou atrapalhando muito”, conta C.R, que só conseguiu amamentar depois que pediu ao marido que mandasse sua mãe embora dali. “Era necessário que eu ficasse calma. Que eu me conectasse com meu bebê. Mas era difícil com ela ali o tempo todo querendo ser a mãe do meu filho. Ela não entendia que era um momento nosso”.

Para Luciana, uma outra mãe que sentiu dificuldade de amamentar justamente por causa da ‘ajuda’ que chegou sem ser convidada, é difícil lidar com presenças inconvenientes “No meu caso, era a minha mãe. Só que ela não tinha amamentado nem eu, nem meus irmãos, e vinha com o mito do leite fraco, da mamadeira pra engordar, e falava uma série de coisas que me atrapalhavam e minavam a minha confiança. Se meu bebê chorava por qualquer motivo, ela dizia que era fome, e eu deveria dar mamadeira porque meu leite não sustentava. E eu não conseguia dizer à ela que o que me incomodava de verdade era a presença dela. Amamentar exclusivamente nos seis primeiros meses foi uma verdadeira vitória. Porque ninguém na minha família acreditava que seria possível. Ninguém tinha sequer tentado”, conta.

Falta de apoio

“Só consegui amamentar porque participei de grupos de apoio que me deram informação de qualidade. Meu marido achava que era muita dedicação ficar o dia todo com o bebê no peito. E aproveitava o meu cansaço para dizer que era hora de parar. Ele não gostava que eu acordasse a noite pra amamentar, nem que eu ficasse à disposição do bebê. Em nenhum momento pensei em parar, mas acredito que foi a partir daí que começou o desgaste no relacionamento. O marido deveria apoiar à esposa quando ela decide amamentar, principalmente porque o filho também é dele, e o benefício pra criança supera tudo. Hoje estamos separados. Não digo que tenha sido por causa disso, mas esse foi o primeiro de uma série de outros momentos que me vi sozinha tendo que tomar decisões que deveriam ser tomadas em conjunto. O marido deve ser o primeiro a apoiar a mulher. Sem o apoio dele, fica difícil”. F.C.

Para Catharina, mãe do Valentim, fez falta o apoio do pediatra que elegeu. “Ele dizia ser favorável à amamentação, mas prescreveu complemento logo na primeira consulta, mesmo sem motivos. O Valentim era um bebê calmo, mamava bem, tinha ganhado peso, estava acima da curva. Mas ele disse que seria bom complementar com leite artificial”, conta. “Fiquei nervosa e aquilo me desestabilizou, mas logo percebi que outros pediatras também faziam isso. Era comum. Então percebi que encontrar um pediatra que promovesse amamentação exclusiva seria um achado”, explica ela, que amamentou exclusivamente pelos seis primeiros meses de vida e segue amamentando até hoje.

Cansaço

É inevitável que a mãe fique cansada nesse processo. Bebês acordam durante a noite, mamam muitas vezes ao dia, e na maioria das vezes a mulher mal consegue sentar na mesa para comer. Bate sono, fome, sede. E se ela já venceu os palpites e a falta de apoio, lidar com o próprio cansaço parece ser o maior desafio. “Eu não tinha ninguém em São Paulo. Minha família era de outro Estado, então me vi sozinha com o bebê enquanto meu marido saia para trabalhar. Era uma loucura. Eu não tinha me preparado para a amamentação. Não conseguia fazer comida, não conseguia fazer nada. Na maioria das vezes acabava fazendo um lanche enquanto ela dormia, e ia limpar a casa. Ela acordava e a maratona continuava. Eu desisti de amamentar e comecei a dar mamadeira para poder ter tempo de fazer outras coisas. Com a mamadeira ela dormia mais. Depois fui saber a diferença entre leite artificial e leite materno, e porque ela dormia mais. Mas era tarde demais. Eu já estava em outro ritmo”, conta Maria Eduarda dos Santos, que acredita que o fato de ter tido bebê muito nova foi ainda mais difícil. “Aos 19 anos eu não sabia o que era dedicação exclusiva a alguém. Não sabia que ter um bebê demandaria tanto de mim”. Maria planeja ter mais filhos, mas desta vez, pretende amamentar “Vou fazer tudo diferente. Mas agora, com 32 anos, minha vida mudou e eu quero me dedicar a alguém dessa maneira”.

Confusão entre mamilos e bicos

“Minha sogra vivia dizendo que meu leite tinha secado, que meu bebê chorava por fome e um dia comprou uma mamadeira e nos deu de presente. Aquela mamadeira ficou ali, esperando para ser usada. Numa noite em que ele chorava e eu estava cansada, meu marido foi comprar um leite artificial. Demos e ele dormiu. Pronto. Foi o motivo para todos acharem que ele tinha ficado com fome aquele tempo todo. E, aos poucos, a mamadeira foi tomando conta do nosso dia a dia, até que ele não conseguisse mais mamar”, lembra Leila Tobias, mãe do Valentim.

De acordo com o Manual Prático de Aleitamento Materno, do Dr Carlos Gonzales, , mamar no peito e na mamadeira exige movimentos muito diferentes da lingua. “No peito o movimento é pra dentro, para tirar o leite. Na mamadeira o leite sai sozinho, e o bebê move a lingua ritmicamente pra fora, para interromper o derrame de leite e poder mamar. O bebê que tenta tomar mamadeira como se fosse peito engasga, fica nervoso e a rejeita. se insistem até conseguir que ele aceite a mamadeira, ele tentará mamar no peito como se fosse a mamadeira. E assim, ele empurra o mamilo com a lingua e o expulsa da boca. A mãe interpreta isso como uma rejeição do peito. Qualquer complemento administrado com a mamadeira interfere com a amamentação, porque o bebê mama menos no peito e assim a mãe produz menos leite, explica Dr Carlos Gonzales.

Vergonha

Por último um item que não deveria nem existir, mas é cada vez mais comum. São raras as mulheres que não se envergonham em amamentar em público. A maioria envergonha-se, como se estivesse cometendo algum tipo de irregularidade. Escondem-se, trancam-se. E, assim, a amamentação é quase uma coisa proibida na sociedade.
Que espécie de crianças queremos criar se não mostramos aos nossos filhos que é natural amamentar?

Hoje existe uma lei que assegura à mulher que possa amamentar onde quiser, mas todos sabemos que não é bem assim. Foram muitos os casos nos quais mulheres foram convidadas a irem para um ambiente mais tranquilo ou propício para que pudessem dar o peito. O episódio já aconteceu em lojas, shoppings e diversos locais onde figuravam seguranças e profissionais despreparados. Nenhuma mulher deve se envergonhar de amamentar seu filho publicamente. E quando as mulheres souberem lidar, com segurança, com a questão da amamentação, aí sim o processo vai ser visto com naturalidade.

Mas isso é assunto para outro post.

One comment

  1. Graziella says:

    Muito bons os relatos.
    Eu amamentei os meus 3, nunca pensei em não amamentar, não havia na minha cabeça nem sequer esse questionamento. Mas os 2 mais velhos eu precisei/quis complementar. Minha filha mais velha porque não dormia, e eu tentei dar a mamadeira (com leite anti refluxo) pra ver se seguia uma ou duas horas de sono ao menos. Não adiantou, mas segui amamentando em livre demanda e complementando apenas 1 vez por dia. Meu segundo filho mamava em livre demanda, engordando absurdos 2 quilos por mês. Mas em um momento de muito cansaço e estresse (ele ficou doente, foi internado, enfim…) meu leite começou a diminuir. Nesse período complementei sem medo, e segui dando o peito. Poucas semanas depois meu leite voltou e segui somente no peito.
    O 3o felizmente consegui amamentar sem complementos. Mas pela minha experiência, não creio nessa teoria de que o bebê pega a mamadeira e não consegue mais mamar no peito, não entende a diferença dos bicos, etc. Conosco não foi assim, complementei sem culpa quando precisei, mas priorizei sempre a amamentação materna.
    Acho o debate importantíssimo, tenho convivido com mulheres super instruídas e bem assistidas que saem da maternidade com prescrição de leite artificial e em momento algum questionam isso. É triste.

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