O que nossos filhos sabem sobre nós

O que nossos filhos sabem sobre nós

Então eu acordo ao lado dela.
Ela fala. E diz “mãe você só tem um olho?”, enquanto eu estou com a cara enfiada no travesseiro. Com a flexibilidade que só seu corpo de dois anos pode permitir, ela levanta a perna direita e encosta o pé no rosto.

E ri. Mostra todos os dentes. Todos aqueles dentes nasceram quando?

Ela parece diferente.
Está diferente.

Desde quando deixou de ser um bebê? Ontem ela era um bebê.
Aprendeu a falar, a sorrir, a encantar. E sabe exatamente a medida disso tudo.

Levanta sozinha, corre até a cozinha, pede uma tapioca. Vai até a sala, puxa uma cadeira, senta e come. Sozinha.
Pega uma faca sem corte, corta a tapioca pelo simples prazer de usar a faca e coloca na boca, totalmente entregue a aquele momento.

Ela está bem.

E a minha felicidade é totalmente impactada pelo seu bem estar. Como se nada fosse tão importante.
Na verdade, nada é.

A cada dia ela está diferente.

E eu agradeço.

Agradeço por poder acompanhar mais de perto cada avanço. Cada descoberta. Nessas horas, todo o glamour do trabalho que abri mão para construir uma outra carreira, do zero, de casa, para que pudesse ter autonomia de tempo e essa sensação de pertencer às memórias da minha filha, fazem todo sentido.

Agradeço porque estar ao seu lado me faz perceber que dois anos é muita coisa para uma criança. E representa tão pouco numa carreira. Afinal, no mercado de trabalho somos todos descartáveis. Na educação de um filho, ninguém pode nos substituir.

Cada dia de uma criança em seus primeiros anos de vida é uma conquista. Mesmo que a luta seja outra. É uma luta com a gente mesma – que se pergunta se deveria olhar pra trás. Mas sempre que a gente se pega percebendo o que ganhou com as escolhas, percebe que é isso que as escolhas fazem com a nossa vida – trazem uma nova perspectiva do que é possível.

Sei que mesmo sozinha ela certamente aprenderia a comer, a andar, a falar, a dizer coisas engraçadas.
Ela faria tudo isso, como qualquer criança.

Mas ela não saberia o que penso de cada coisa. Qual meu prato favorito. O sapato que mais gosto, nem as palavras que mais saem da minha boca.

“Mãe, está frio e sol, como você gosta”, disse a Eva certa vez.
E eu me dei conta de que nunca precisei contar do que eu gostava. Elas sempre perceberam.

Perceberam como eu ficava feliz no inverno quando o dia estava claro. Como o calor me deixava aborrecida. Quais são meus vestidos favoritos, a comida que mais gosto. O único bolo que sei fazer. Talvez elas me conheçam mais que eu me conheça.

A convivência faz isso. Traz vínculo. Faz com que tenhamos intimidade.
Sempre que uma mãe tenta conquistar seu espaço dentro do trabalho, com equilíbrio, permitindo que a mãe e a profissional coexistam, sem descartar a maternidade de sua agenda, todo mundo ganha.
Infelizmente essa ainda não é a realidade da maioria das mulheres que acabam sendo devoradas pelo trabalho, que engole tempo, felicidade e a possibilidade de estar atento aos pequenos movimentos dos filhos.

Mas quando a gente sabe priorizar o que tem valor, fica mais fácil colocar tudo na balança e lutar por aquilo que pode nos beneficiar.
Esta semana conversei com duas mães que tiveram a ideia de levar para a chefia uma solicitação de um espaço para bebês das mães que voltam de licença. A negociação só estava começando, mas elas tinham aquele diferencial que nossos filhos enxergam tão bem em nós – a capacidade de resolver qualquer situação.
Mesmo que elas ainda não enxergassem isso – ela estava lá, prontinha para ser usada – só que dessa vez, não para lutar por um projeto da empresa e sim para conquistar algo que efetivamente mudasse a vida delas próprias.

Nessa revolução – pouco a pouco promovida pelas mães – o maior diferencial é justamente a capacidade de lutar que ganharam com a maternidade. Afinal, se é pra ser mãe leoa, vamos mostrar as garras pra defender nossos interesses.
Os filhos agradecem.

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