“A mulher de hoje não tem o direito de ser mãe. Existe algo mais feminino do que isso?”

“A mulher de hoje não tem o direito de ser mãe. Existe algo mais feminino do que isso?”

Relato de uma mãe que prefere se manter anônima

“Fui a primeira mulher a ser aprovada no vestibular do ITA, uma faculdade militar de engenharia que não aceitava mulheres. Me formei Engenheira Mecatrônica.
Profissionalmente, sempre convivi em ambientes masculinos. Apesar disso raramente sofri discriminação na faculdade ou no trabalho. Trabalhei 6 anos em uma grande multinacional como engenheira e era felicíssima no trabalho. Ganhava um bom salário. Quando engravidei, cursava um programa de formação de futuros líderes da empresa. Meu chefe me apoiava e dizia que eu poderia ter uma carreira brilhante se desejasse alcançar posições mais altas. Durante a gravidez eu não pensava muito em como seria voltar ao trabalho, mas já desconfiava que conciliar filhos e profissão não seria nada fácil.

Mas então nasceu meu primeiro filho, e também eu renasci como mãe. É uma experiência única, cada mulher vivencia de uma forma. Para mim, ficou claríssimo. Pedi demissão do emprego que eu amava.

Justifiquei ao meu chefe que a empresa tinha 10000 funcionários, mas meu filho só tinha uma mãe. As mulheres eram minoria na empresa, não havia nenhum programa de apoio a mães ou trabalho a distância, sequer uma creche corporativa. Abandonei também uma pós-graduação em andamento.
Fiquei em casa durante alguns meses, mas sabia que financeiramente não seria viável ficar sem trabalhar durante muito tempo. E havia não só a necessidade financeira, mas também uma vontade enorme de fazer valer o meu talento, a minha energia criativa, de realização, que se tornou ainda melhor depois que me tornei mãe. Cuidar do bebê em tempo integral é maravilhoso, mas também muito cansativo e um pouco frustrante para quem está acostumada à vida profissional.

Graças a alguns contatos consegui algo improvável na minha profissão: um emprego em meio período, com a flexibilidade de alguns dias em home-office. Foi a solução perfeita!! Eu tinha carteira assinada, direitos trabalhistas garantidos (a legislação brasileira atual é totalmente compatível com esse tipo de contrato de trabalho!), ganhando o equivalente à metade do salário. Mantive a amamentação do meu filho, ele ficava com as avós nos períodos em que eu precisava me ausentar, e isso era benéfico para todos. As vovós podiam curtir o netinho, meu filho podia receber esse amor que é tão valioso e diferente do amor de mãe, eu podia voltar a exercer a minha profissão.

Mas foi aí que eu senti os primeiros traços de preconceito. Meu contrato “especial” de trabalho não era bem visto pelos meus colegas. As pessoas me olhavam feio ao me ver entrando mais tarde ou saindo mais cedo do trabalho. Porém eu produzia muito mais do que os outros, ganhando a metade do salário. No escritório, não perdia tempo com fofocas ou distrações, otimizava o meu tempo, me tornei ainda mais objetiva. Levava trabalho pra casa.

Por incrível que pareça, a “arcaica” legislação trabalhista brasileira estava preparada para acolher uma mãe no ambiente profissional, mas a sociedade não.

A empresa me tratava como se estivesse me fazendo um favor.
Depois de inúmeras dificuldades, tentando outros modelos de trabalho dentro da empresa, passando por uma nova gravidez e enfrentando outros problemas pessoais, passei por um longo processo de assédio moral que culminou em mais um pedido de demissão. Eu tinha certeza de que nunca mais encontraria outro emprego semelhante. E assim aconteceu.

Então com dois filhos e mais despesas em casa, fui obrigada a aceitar todo tipo de trabalho free lancer que me permitisse ficar meio período com os meninos, já que eles já iam pra escola. Tentei empreender uma consultoria independente, retomar a pós-graduação. Voltei a dar aulas de matemática, algo que eu fazia antes de me formar engenheira. Tudo pra não ter que voltar a trabalhar em tempo integral e ter que terceirizar os cuidados com os meus filhos.

A mulher de hoje não tem o direito de ser mãe? Existe algo mais feminino do que isso? A sociedade simplesmente recusa o meu talento profissional se eu escolher passar parte do tempo com meus filhos. Tive depressão, ansiedade, síndrome do pânico.

Por outro lado, quando olho para os meus meninos, tenho certeza de que tudo valeu a pena. Maternidade se exerce convivendo com os filhos, e para isso é preciso tempo. Parir é a parte mais fácil. Amor de mãe e filho não se pratica a distância. A presença da mãe é insubstituível principalmente na primeira infância. Consegui amamentar meus dois filhos livremente até os dois anos de idade, eles só entraram na escola depois dos três anos. São crianças amáveis, seguras, saudáveis, não tem problemas de convivência, de comportamento. Mesmo agora que não são mais bebês, quero continuar presente, ajudar nos estudos, participar da vida escolar, passar valores. Para que mais tarde possam viver por sua própria conta e passar este amor adiante. Até lá espero encontrar um caminho para continuar exercendo a minha profissão de engenheira, já que minha “profissão” de mãe é me fazer desnecessária a longo prazo. Quanto tempo a sociedade vai demorar para reconhecer o valor deste trabalho?”

Por questões pessoais, a autora pediu para não ser identificada no depoimento

6 comments

  1. Célia Magalhães says:

    As ambições e as ponderações são irrepreensíveis! E eu acho que temos valores importantíssimos (além do conhecimento técnico da área de cada profissional) para oferecer e compaetilhar. Oxalá a depoente encontre o equilíbrio almejado e, que saiba não estar sozinha.

  2. Caroline Felfili Fortes says:

    Prazada mãe, você tem certeza que foi o movimento feminista que criou o problema de vc ser mãe e não conseguir trabalhar ou a manutenção de um mercado de trabalho voltado para o homem que não consegue absorver as mulheres que se recusam a renunciar seu lado feminino.
    Creio eu que o feminismo luta justamente por isso, por justiça de gênero e nao para que nos tornemos “homens”.
    Reflita, para que quando for cobrar ou lutar por uma sociedade mais justa para seus filhos, saiba com que arma lutar, contra quem discursar e onde e como agir.
    Abraços e força

  3. Alessandra says:

    Boa noite,estou vivendo um grande dilema também, tenho uma filha de sete anos do meu primeiro casamento,faz quatro anos que me separei e até junho deste ano morava com os meus pais e a minha filha,porém, em Junho de 2015 me casei novamente e me mudei para o interior, como não consegui uma recolocação profissional na empresa, pedi para ser demitida e consegui, hoje faz 5 meses que me casei de novo,que estou morando com a minha filha e meu atual esposo no interior e 5 meses que estou desempregada.
    Não foi nada fácil largar o meu emprego,onde já tinha uma certa estabilidade, um salário razoável e ótimos benefícios para ser dona de casa,me peguei várias vezes me sentindo triste por não ter mais um emprego formal, por não acordar cedo todos os dias,me arrumar toda e sair para trabalhar. Mas ao mesmo tempo me sinto feliz por ter reconstruído uma nova família, ter meu cantinho,às minhas coisas,mas muitas vezes a dependência financeira grita bem alto dentro de mim, me sinto muito pra baixo por muitas vezes não ter mais aquela independência que eu tinha há cinco meses atrás e desvalorizada por ser apenas dona de casa.
    Então comecei entregar uns currículo e fui aprovada numa empresa na minha atual cidade, o salário inicialmente não é atrativo, mas me vejo com uma oportunidade de recomeçar a ter uma certa independência, porém o que me mata é ter que terceirizar os cuidados da minha filha com uma escola em período integral ou uma cuidadora, não sei até que ponto vale a pena eu deixar de ficar com ela para ir trabalhar,sendo que o salário nem é bom mas por outro lado vou me sentir útil. Aceitei a vaga para começar semana que vem, mas no fundo estou muito confusa por que meu coração de mãe diz uma coisa mas a minha razão profissional diz outra,estou num conflito interno muito grande e sofrendo muito por não saber o que resolver,não sei se assumo de vez o papel de cuidar da casa,da minha filha em tempo integral e já arrumar meu segundo filho, pois eu,meu esposo e minha filha queremos muito ou se volto a trabalhar mas com o coração apertadinho por não estar com ela o dia todo,uma vez que já me sinto culpada por ter me separado do pai dela e ela não ter uma família convencional.

  4. Julie Maria says:

    Alessandra, me senti profundamente tocada com seu dilema. Gostaria de poder conversar contigo por e-mail e compartilhar contigo sobre estes temas. Se puder me escrever para ter seu e-mail, serei grata: juliemaria77@gmail.com

    Um abraço,
    Julie

  5. Cintia says:

    Nossa me identifiquei demais!!! Trabalho em um meio totalmente masculino (TI) tenho uma carreira muito boa e quando voltei ao trabalho consegui negociar um meio turno presencial e outro home office que foi até os 12 meses do bebê. É realmente as piadinhas que vinham dos outros colegas sendo que eles não rendiam nem a metade do que eu rendia era horrível. Tive que voltar a trabalhar integralmente, mas graças a Deus continuo amamentando, mesmo assim a sensação de péssima mãe ainda existe. Agora grávida de novo creio que não conseguirei voltar da licença se não houver. Oportunidade de fazer o home office. Terei que recorrer a freelas…. Ninguém entende que a mãe precisa desse contato com seu bebê e que se as empresas podem ajudar teremos um ambiente saudável para todos

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *