Case da semana: a conquista de Rachel

Case da semana: a conquista de Rachel

Num universo corporativo que tira o sangue dos funcionários, incentiva a competitividade, o excesso de carga horária, hora extra e faz cara feia pra funcionária que virou mãe ou se mostra humana no ambiente de trabalho, é raro termos exemplos onde a coisa dá certo.

Mas eles existem, e precisam ser mostrados, não só pra mostrar o caminho das pedras, mas pra abrir precedentes nas empresas, estimular que outras enxerguem como possibilidades o que não viam como opção.
Algumas semanas atrás citei uma amiga que negociou uma condição de trabalho favorável, após considerar pedir demissão por conta do tempo fora de casa, incompatível com a maternidade. E prometi que daria nome aos bois. Aqui está:

Algumas semanas atrás a Rachel estava decidida a pedir demissão, mas não sabia a reviravolta que teria em sua vida quando desse esse passo. Mãe da Milena de dois anos e consultora de responsabilidade social na Biosev (a segunda maior processadora de cana de açúcar do mundo com cerca de 17 mil colaboradores e 11 unidades agroindustriais espalhadas em 5 estados), uma de suas diretrizes de trabalho era justamente construir um escopo de trabalho para​ atrair e reter mais ​ ​​mulheres e uma das pautas era implementar uma nova politica ​que considerasse a necessidade das mães dentro da empresa.

Sendo mãe, era um assunto que a interessava de perto, mas ela nem imaginava que acabaria sendo o próprio case da empresa – o laboratório da própria tese.

Pra chegar no dia em que ela pediu demissão por conta da filha, temos uma estrada a percorrer – a Rachel é carioca e chegou em São Paulo dez anos atrás. Uma mãe consegue entender a dificuldade que é criar um filho sem parentes próximos por perto. E ela sentiu isso na pele. Com a mãe e irmã longe, ela nem pensava em engravidar. Tinha uma vida profissional agitada, e uma vida pessoal boemia, já que o marido é músico nas horas vagas.

Ter filhos, pra Rachel, era uma coisa meio assustadora.
Só que aconteceu.
Quando decidiram que estava na hora, veio o desejo e a confirmação logo depois. Mas a empresa na qual trabalhava anteriormente já não trazia tanta satisfação pessoal. O resultado foi que ela pediu as contas ainda na licença maternidade.

Quando retornou ao mercado de trabalho, Milena tinha 8 meses. O convite era que Rachel criasse a área de responsabilidade social e logo de cara teve que fazer uma viagem. Nesse período, sua filha teve uma pneumonia, o que a afastou do trabalho.
Mesmo assim, sentiu que tinha sido acolhida e bem recebida, mesmo ausente nos dias que estivera com MIlena no hospital. Aquelas faltas não tinham sido motivo pra desavenças profissionais.
O clima era bom, e Rachel foi se envolvendo com o trabalho, entrando num período intenso de viagens, que a fazia sair de São Paulo toda semana, para trabalhar em locais por dois ou três dias, na maioria das vezes sem sinal de celular.

“Com o tempo isso foi me deixando mal. Eu me cobrava porque queria estar perto. Falava com meu marido às sete da manhã, antes de sair do hotel, e às 11 da noite, quando retornava. Era um sofrimento passar o dia todo sem notícias da Milena”.

Enquanto isso, o marido, Leandro, assumia tudo sozinho – levava pra escola, buscava, passava roupa, arrumava comida, e via a filha sentir muito isso. “Ficava difícil gerenciar a situação porque ela perguntava de mim o dia todo. Nos períodos prolongados de viagem ela ficava doente e eu tinha absoluta certeza de que era a questão emocional”, conta.

Foi aí que Rachel começou a se questionar por quanto tempo ia aguentar essa rotina. “Em certo momento, depois de um trajeto de viagem, cheguei num local e falei que não queria mais, que por mais que eu amasse meu trabalho, aquilo estava me fazendo mal e eu ia arriscar pedir demissão. Mas não queria cair em outra empresa. Tenho uma consultoria pensei em arriscar e correr atrás de mais clientes, ter uma flexibilidade de trabalho e não viajar”, lembra.

Só que quando pediu demissão foi um choque para a empresa. Como aquela era uma área que estava sendo muito reconhecida não apenas internamente, como por investidores, a empresa de cara fez algumas propostas que, segundo Rachel, poderiam ter sido interessantes mas não assegurariam uma liberdade maior ou eventualmente excluiriam as viagens da agenda.
“Sustentei o pedido de demissão e falei em ficar como consultora sem entrar na execução dos projetos”, explica. “Foi considerada uma possibilidade mas eles não queriam perder o vinculo. Depois de um mês chegamos a uma negociação formal, boa para todas as partes. Não queria que fosse um favor“.

Com a aprovação da presidência, fizeram um contrato formalizando a redução para metade da carga horaria, home office e um escopo de trabalho diferente, sem viagens que envolvam pernoite.

“O fato foi que a empresa abriu exceção para um teste e uma possibilidade nova porque a empresa nunca tinha testado esse tipo de relação antes. Já havia um indício de que a empresa estava preocupada com o tema, mas acabei sendo o próprio case da empresa de quebra de paradigma porque alem da redução da carga horaria não tenho mais a obrigatoriedade da estar na empresa fisicamente todos os dias”

Para Rachel, esse é um avanço que deve ser comemorado, pois abre um precedente e inspira outras empresas ‘Isso pode ser um laboratório para a empresa perceber que é um caminho não só pra mim. Isso pode se tornar uma opção para todas as mães”

E ela também já vê os reflexos em casa “A dinâmica em casa é outra. A felicidade dela quando ela chega da escola e vê que eu estou em casa é contagiante.”

6 comments

  1. Vanessa Ayres says:

    Já comentei em outros cases q passei por isso pelo menos duas vezes….e na mesma Empresa! Mas tem Empresa que não muda sua postura….e sinto de detalhar e compartilhar sem vergonha essas duas fases tão importantes da minha vida….a primeira contratação na referida Empresa meu primeiro filho tinha 2 anos,mas eu “rebolava” p ser “super” em todos os aspectos….dava o melhor de mim,com sincero sorriso no olhar, prazer no trabalho e sempre q possível levava serviço pra casa…onde mais concentrada eu produzia e ainda melhor…superava tds os dias muitas pressões, como marido machista e ciumento, uma chefe mimada com “QI”alto e uma ex obesidade mórbida q acabava de vencer,depois de uma cirurgia bariátrica 45 kilos a menos, 6 meses antes da gravidez do meu primeiro bebê)….Fui demitida “bestamente”, sem empatia alguma e com um discurso cheio de promessas…uma delas aconteceu….fui convidada a trabalhar no lugar de quem me demitiu, enquanto a mesma estava de licença maternidade. Mas Deus permitiu q assim que a mesma voltou de licença, eu me acidentei à caminho da Empresa que me rendeu um afastamento do trabalho por 2 meses. Super preocupada com a minha ausência, numa fase difícil da Empresa,busquei estratégias para somar, avaliei os problemas e as soluções, para alavancar a produtividade, as vendas e acabar com as limitações funcionários e do sistema. Então,durante o afastamento, desenvolvi um Projeto de Motivação x Qualidade de Vida p os Colaboradores x Aumento da Produtividade da Empresa, com preocupação extra às mães e filhos q passavam tanto tempo longe um do outro. Na teoria o Projeto foi muito bem recebido, criticado e elogiado, mas na prática foi totalmente ignorado. Pra ajudar,engravidei do meu segundo filho. Me desesperei no começo mas logo me tranquilizei ao ouvir da presidente da Empresa q me daria todo o apoio necessário e que seria maravilhoso eu ser mãe novamente….Pleiteei carga horária reduzida e fui atendida. Trabalhei em casa algumas vezes quando meus filhos estavam doentes ou não tinham aula. E era evidente o aumento ou no mínimo igual produtividade….mas de repente…tudo mudou….a diretoria mudou de opinião…segundo a gerência, era muita pressão dos funcionários antigos quem não tinham as mesmas “regalias”. E novamente fui dispensada…..com dois filhos, três Faculdades, um técnico,,morando de aluguel e um certo divórcio q (felizmente ou não) não foi bem sucedido…kkkk Desde então, muita luta, um verdadeiro sufoco para praticar o q acredito ser possível com o apoio das pessoas certas….fracassei muitas vezes, chorei,sorri até quando o coração estava partido…respirei fundo quando não tive grana para os pedidos mais simples dos meus pequenos e também quando os pagamentos dos “bicos” atrasaram o pagamento…ou admiti q “perder muitas vezes é ganhar” quando por exemplo abri e fechei em um curto período de tempo um comércio q foi idealizado e concretizado sem capital nenhum. Mas ainda estou de pé,com fé e cada dia mais resiliente, ainda mais agora q o objetivo virou uma causa nobre, q afeta muitas mulheres na mesma condição q eu…conquistar meu espaço e ser mais uma MÃE AT WORK. Bjssss à todas!!!!

    • Dhaniel Borini Coelho says:

      Olá Vanessa, sua história muito me emocionou… vocês mulheres são guerreiras incansáveis, sou casado e tenho MUITO ORGULHO de ter uma esposa que alimenta esse desejo de estar a cada minuto perto de nosso bebê que vai nascer em novembro próximo… Não estranhe um homem estar te enviando uma mensagem mas é que realmente nasceu no meu coração um desejo inexplicável de ajudar as mães a estarem ao lado de seus filhos os ensinando princípios corretos e valores que podem ser vistos e reproduzidos de seus pais. Não que esse seja o meu caso, a minha esposa não trabalha e eu como Personal Trainer a 15 anos, sustento minha casa e sou muito feliz pela escolha dela em cuidar da maternidade sem a culpa doméstica de imposição de tarefas profissionais, digo doméstica pq no mundo lá fora esse é um padrão e não temos como fugir, existe essa cobrança seja por feminismo ou por simples falta de coragem de enfrentar o mundo por causa de nossos pequenos amados. Torço por você, vc já é uma vencedora primeira mente por perder 45kg e sei bem o quão é difícil, mas vc venceu… continue assim. Sua força vem do alto de onde vem o seu socorro… Existe algo no meu coração que me impulsiona em ajudar a vocês mulheres, mães a conquistarem o tão desejado e de direito tempo para cuidar, ensinar, mimar suas princesas e príncipes. Penso que a decisão é o primeiro passo para portas se abrirem, não fique desesperada quando algumas portas se fecharem Deus esta guiando seus passos e construindo seu caminho, descansa em Deus e Ele satisfará os desejos do seu coração. Estamos juntos, ainda não sei como mas eu já decidi em dar essa oportunidade a todas vocês, Ouuu pelo menos motiva-las a isso. Paz.

  2. Raquel says:

    Esta deveria ser uma causa a ser defendida pelas mães no Congresso e Senado: à flexibilização da CLT, com carga horária reduzida para mães cuidarem de seus filhos. Ganham os filhos, as mães, o Estado com redução despesas, e arrisco a dizer que ganham as empresas porque uma profissional motivada rende mais em tempo proporcional. Casos como da Rachel infelizmente ainda são exceção.

  3. Barbara Axt says:

    Só me incomodou o texto falar que isso é uma opção, um direito para as “mães”. Por que não para mães e pais? Pais também têm direito a horário flexível, a ficar com filho… Um pai é tipo IGUAL a uma mãe, sabe? A criança é sempre filha DOS DOIS. Igualmente.

    • Dhaniel Borini Coelho says:

      Muito bem colocado Bárbara… O amor é incondicional tanto para a mãe qua tô para o pai… Mães e Pais de verdade digamos.. Sou Personal Trainer e hoje trabalho 10 horas por dia. Mas Tenho as tardes livres.. trabalho de 6:00 as 12:00 e de 16:00 as 21:00. E estou pensando seriamente em criar algo para trabalhar em casa quem sabe no mundo digital para me dar a renda necessária para criar meu amado que nasce em novembro… infelizmente o autônomo tem.menos ainda direitos ou regalias quanto ao seu trabalho… pois ganha por produção, deveria existir leis que nos desses também esses direitos… a figura paterna e fundamental na disciplina do filho… lembro só daquele olhar do meu Pai quando fazia algo errado.. paternidade e maternidade são ferramentas distintas dadas aos homem e mulheres e cada um deve exerce las com afinco… mãe não consegue ser pai assim como o contrário também é verdadeiro, caso contrário não seríamos marido e mulher o projeto inicial de Deus para Seus filhos.

  4. Carolina Fiorini says:

    Pedi demissao após a licença maternidade justo porque não teria qualquer possibilidade de flexibilidade ou home office. Deixar um bebê de 4 meses por 10 horas em uma escolinha não me pareceu justo e tampouco viável. Meu sonho sempre foi poder trabalhar meio periodo, ou ter flexibilidade. Infelizmente isso é raríssimo (se não for inexistente) na minha área – pesquisa e desenvolvimento de produtos.

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