Da loucura à mudança – Julia, o trabalho e os 4 filhos

Da loucura à mudança – Julia, o trabalho e os 4 filhos

Parte 1 – a loucura

“Trabalho em uma multinacional Alemã no setor da construção civil. Atuo na área comercial, onde tenho experiência de 9 anos. Tenho uma rotina louca porém bem estruturada.
Vitor estuda somente no período da manhã, seu transporte e por “perua” e de tarde fica com minha ajudante do lar.
As trigêmeas ficam na escola das 7 as 17h, o transporte é por conta do marido. Ele trabalha próximo e tem maior flexibilidade de horário.”

Foi assim que começou o e-mail da Julia. Confesso que após ler mais de cem histórias de mães que haviam se inscrito no programa voluntário de transformação que eu estava pensando em promover, parei até de piscar. Minha intenção era acompanhar a vida de três mães, e, de alguma forma poder contribuir para uma transformação em suas vidas – no que dizia respeito a maternidade e carreira. E com a Julia eu não sabia nem por onde começar.
Seu dia se iniciava às 4:50h quando começava a tomar banho e arrumar as coisas das crianças, ficava no trabalho das 7:30 até 18H e, além de cuidar das quatro crianças ao chegar em casa, ela e o marido lidavam com supermercado, farmácia, presente de aniversário do final de semana, prendas para a festa junina da escola, roupas para o inverno etc…
Seu pedido era claro

“Não largaria minha profissão para estar com eles 100%, mas gostaria de poder estar mais com eles, sim! Gostaria de poder me dedicar nas reuniões de comissões de pais da escola, gostaria as vezes assistir a aula de natação e acompanhar seu desenvolvimento, gostaria de colocar eles na cama todos os dias, gostaria de jantar todos juntos…”

Não pensei duas vezes e perguntei se ela estava disposta a fazer alguma transformação em sua vida. Ela respondeu que sim. E quando marcamos nosso primeiro Skype, entendi que ela ia ter que mudar tudo.


Parte 2 – o caos

Em nossa primeira conversa, tivemos a presença da Rachel, que tinha experiência em renegociar horários e acabara de flexibilizar sua própria rotina numa grande empresa. Então, a ideia era munirmos a Julia de argumentos para isso.
Só que o buraco era mais embaixo.

Além de estar com a imunidade baixa e ficar doente com frequência, a Julia estava vivendo uma rotina insana, que não dava espaço para sonhar.
E quando começamos a falar de sonhos, é que percebemos que isso era tão gritante.

“Sonhos? Não tenho tempo de sonhar”, ela dizia, num riso de desespero, que denunciava que estava sobrevivendo como podia.

Conforme conversávamos, percebíamos claramente que era um caso que ela precisava resgatar a si mesma. Relembrar quem era aquela Julia que habitava naquele corpo antes de ter quatro filhos. Mas a Julia mal sabia o que fazer com o próprio tempo caso tivesse tempo livre – ela estava tão desacostumada a olhar para si, que tentava preenchê-lo com afazeres domésticos ou para os filhos, quando sobrava uma brecha na agenda.
Me lembro de perguntar ‘quando você tem um tempo para você?” e ela responder, com sorriso no rosto “Quando eu acordo, às 4h da manhã. Tomo um banho sozinha”.

E, por mais que soubesse que vivia uma vida que estava a sufocando dia após dia, não se dava o direito de reclamar. Sentia culpa quando reclamava da rotina, por parecer que estava reclamando dos filhos e do emprego que tinha.

“Ninguém sabia o que eu vivia no dia a dia. Eu não estava feliz”

Parte 3 – a Mudança

Foi quando a coach Renata Magliocca entrou na jogada. A ideia era entendermos como promover uma transformação. Mas ninguém imaginava o quão profunda ela seria.
No nosso grupo de whatsapp, formado por outras mães que também estavam dispostas a promoverem transformações em suas próprias vidas, havia uma outra mãe, de uma cidade próxima, que dizia com alegria como gostava da rotina de sua cidade. Coincidentemente, a cidade onde morava a sogra da Julia.
Eu que não pensava em sair do trabalho, vi que tinha que mudar tudo. Que era para ter mais qualidade de vida para mim e para as crianças. Que eu merecia respirar, ter tempo pra mim e ter uma convivência maior com eles”

E um belo dia ela resolveu mudar e fazer tudo que queria fazer…

Ontem passamos a tarde juntas. A Julia está com a expressão mais calma. Tem uma alegria juvenil, deixou o antigo emprego, alugou um apartamento em outra cidade, está preparando a mudança, e reorganizando a rotina da família. Além disso, ela está com um projeto de abrir sua própria empresa, usando suas habilidades comerciais e de organização.
Nem lembro quantas conversas tivemos por whatsapp, o quanto choramos juntas enquanto ela dirigia e contava o que estava sentindo e o quanto estava cansada. Nem lembro mais, porque isso não faz mais parte da vida dela.

A nova Julia não só sonha, como resgatou a si mesma e a capacidade de sonhar, de olhar para o futuro e perceber que sua vida não estava fadada à simples sobrevivência.

A nova Julia faz pilates, dorme, cuida de si e está ansiosa para dar vida para seu novo projeto. A nova Julia percebeu que a vida continua depois da maternidade. Que aquele dia em que ela cogitou a hipótese de se atirar da sacada, depois da licença das trigêmeas, ficou pra trás.
A nova Julia percebeu que, se ela não olhasse para si mesma e não promovesse mudanças em sua vida, ninguém ia fazer aquilo por ela. E, por mais que ela sempre vá precisar reorganizar a rotina, na tentativa de encaixar todo mundo na vida que gostaria, ela percebeu que é capaz de fazer isso. Que tem a coragem necessária de começar de novo e de novo.
A nova Julia, na verdade, é a velha Julia de sempre. Ela só precisava voltar a enxergar a si mesma.

4 comments

  1. Licia says:

    Bom dia
    Queria mais informações sobre esse Programa que a Julia da materia acima se inscreveu. Ainda está ativo?
    Obrigada

  2. RENATA DE OLIVEIRA IDARGO says:

    Ao contrário da Julia, estou o tempo todo com os filhos e gostaria de trabalhar e poder resgatar a minha vida. Desde que me tornei mãe, a dedicação é 100%, inclusive porque optei por eles não irem à escola.
    Me dediquei a criar mil trabalhos onde pudesse estar com eles e tb ter uma renda, mas nenhum deles vingou, ao contrário, contraí milhares de dívidas, com banco, amigos, família e nenhum resultado satisfatório.
    Quando as crianças estão com o pai, nem como, pra poder sobrar comida pra eles.
    Gostaria de um trabalho que acolhesse uma mãe wque gosta de maternar e que eu pudesse sentir que faço algo mais que criar os filhos, algo por mim.

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