Com quantas escolhas se constrói uma história?

Com quantas escolhas se constrói uma história?

Todas as mães encontram dificuldades e obstáculos pelo caminho. Algumas estacionam diante deles. Outras seguem pelo campo de batalha, sabendo o preço que podem pagar pelas escolhas.

A Luana Buono sempre fez parte do segundo grupo.

Sua experiência com a maternidade começou com um desafio. Tinha um médico humanizado e a convicção de que teria um parto natural, mas não contava com uma filha pélvica – ou melhor, sentadinha no conforto da barriga de uma mãe que nunca parava quieta.

Para Luana, a gravidez era um fragmento de sua vida agitada e intensa. Trabalhava incansavelmente a frente de uma agência de eventos e mal tinha tempo de respirar. Mas não conhecia a palavra ‘limite’ quando sabia bem o que queria. Sendo assim, desafiou a própria medicina, dizendo que não se importava com o fato da filha estar pélvica.

“Em um momento de reflexão, veio uma voz interna: Calma Luana, não adianta se fazer de vítima na reta final. A verdade é essa, os planos mudaram e você vai precisar encarar de frente a situação. “

Como um mantra, repetia isso para si mesma. Mas nem imaginava que essa seria a frase que pautaria sua vida nos anos que viriam a seguir. . Em fevereiro de 2011, Pietra entraria para as estatísticas dos nascimentos improváveis – um parto pélvico e natural. Mas se engana que esta seria a grande dificuldade ou ousadia de Luana nesse novo trilhar.

Sua filha, Pietra, perdeu peso nos primeiros 15 dias de vida. Luana estava cansada, dormindo pouco e atordoada com a quantidade de palpites em sua cabeça. Também não se desconectava do trabalho. “Tive uma baixa na produção de leite. Teve uma noite que ela queria mamar e não saia nem uma gota. A pequena gritava, se esperneava e nada… Quase morri, chorei horrores, me senti a pior e mais inútil das criaturas. Fiquei desesperada achando que “não tinha leite”, que não poderia amamentar minha filha”, confessa.

No dia seguinte, quase em depressão, foi à pediatra, que disse que aquilo estava totalmente ligado ao estado emocional e que fariam uma “operação SOS” para a produção de leite aumentar. Podia parecer mais fácil dar a mamadeira de uma vez, mas ela optou pelo relactador, um recipiente parecido com uma mamadeira que tem duas sondas que ficam próximas ao bico do seio e o bebê mama do seio e da “mamadeira”. Conforme o bebê mama, ele estimula a produção de mais leite. Isso é usado por mulheres que adotam crianças e com o estímulo conseguem produzir leite e amamentar.

“No começo foi duro amamentar com aquele troço… Pietra chorava, soltava a sonda, eu ficava nervosa. Um horror. Mas com o tempo fomos nos acostumando. Ela passou a ganhar peso, eu fiquei aliviada e feliz da vida. Depois de uns 15 dias a Pediatra me sugeriu começar a tirar o relactador aos poucos para ver a reação dela, já que o fluxo de leite era bem mais intenso com a tal traquitana… Ai começou a segunda fase da novela…”

Cada mamada virava uma verdadeira luta entre mãe e filha. E passou a frequentar os encontros de amamentação da Matrice para se sentir fortalecida.

Com o tempo, voltou ao trabalho – e, mesmo tendo seu próprio negócio, sentia um embrulho no estômago com a maneira como os negócios eram feitos.

Para ela, que estava vivendo com o coração palpitando intensamente, só fazia sentido se houvesse propósito naquilo. Mas não sabia como recomeçar. Só que tinha que fazer isso.

Sentou com sua sócia, e ambas reestruturaram a agência, e repensaram todo o esquema de trabalho, o tipo de clientes que queriam atender, e a maneira como queriam trabalhar. O processo levou tempo. O mesmo tempo que levou para seu casamento terminar.

Intensa, Luana não encontrava prazer no meio termo. Era tudo ou nada nesse jogo. E, assim, enfrentou mais um grande desafio, enquanto sua fase profissional vivia uma grande turbulência – a separação. Mais uma vez, repensou todo o esquema de vida que estava determinado, e funcionando. Mudou de casa com a filha, teve o acolhimento da mãe, e, quando menos esperava, surgiu um novo amor.

Foram dois anos entre namoro, casamento e uma vida nova.

Com o novo parceiro, sentiu uma nova conexão – seu corpo e espírito pediam uma paz que não estava na cidade grande. Já estava habituada à uma alimentação consciente, tinha mudado todos os hábitos de vida, e nenhum deles combinava com o trânsito caótico, as reuniões dentro de escritórios, e as preocupações típicas do dia a dia de São Paulo.
Então, mais uma vez, entendeu que precisava encarar de frente a situação. Não dava pra simplesmente ignorar que aquela vida não estava fazendo sentido.

Nesta quarta, seis anos depois do nascimento de Pietra, Luana postou a foto de sua filha, fazendo sua primeira lição de casa. Mas não era uma simples lição de casa. Sentada na varanda do sítio que fica há 70 km de São Paulo, para onde se mudaram há um mês, ouvindo o canto dos pássaros e a paz do entardecer, ela talvez ainda não se dê conta de que ela própria foi o ponto de partida para que sua mãe se reconectasse consigo mesma.

E, talvez, mesmo sempre se questionando se fez a escolha certa, a lição de Luana para Pietra segue fazendo sentido, à medida que inspira as pessoas a seguirem o pulsar do próprio coração: no jogo da vida, as escolhas sempre nos levarão para algum lugar. Então, nunca se acomode.

Sorte da Pietra de ter uma mãe assim.

2 comments

  1. Ana says:

    Obrigada! Sua história caiu como uma luva neste exato momento da minha vida, meu bebe foi pélvico mas não tive a força da Luana para lutar contra as probabilidades, hoje meu trabalho e meu filho são minha paz e meu refúgio, sigo num casamento que está por um fio mas sei que em breve vou me encontrar, no caminho que eu escolhi pra mim. Mais uma vez, obrigada.

    • Luana says:

      Tenta seguir seu caminho em paz que a resposta chega. E quando a gente percebe a transformação aconteceu. Força e luz. beijos Lua

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