Mães em fúria: a panela de pressão materna

Mães em fúria: a panela de pressão materna

Era uma noite qualquer quando Julia levantou-se da cama prestes a explodir. Estava tensa com o excesso de trabalho, a rotina maluca da casa e a maior das responsabilidades: criar seus quatro filhos, sendo três trigêmeas, fruto de uma gravidez natural e não premeditada.

Sem pensar duas vezes, procurou onde pudesse extravasar e encontrou no drywall do banheiro uma boa solução. Foi a primeira, mas não a última, noite de socos naquela parede. “Eu sentia que ia explodir. Não tinha pra onde fugir. Era assim que eu colocava aquela raiva pra fora”, conta.

A executiva de contas *Lucimeire, mãe de dois filhos, também passou por um período semelhante de estresse que atribui ao fato de ter acumulado trabalho com as férias escolares dos filhos. “Era tanta coisa pra fazer, pensar que eu praticamente não dormia. Achei que fosse ter um piripaque um dia desses, e senti meu corpo dar sinais depois que as férias das crianças acabaram”, conta. Lucimeire chegou a parar no hospital graças a estafa física e mental acumulada. “Nem sabia mais o que estava sentindo. Hoje percebo que fui além dos meus limites”.

Para a psicóloga Natália Lobo, que é mãe de duas meninas, o excesso de preocupação da mãe ‘moderna’, pode agravar essa tensão.

“Uma vez, exausta de todas as mil coisas que eu cuido e frustrada com todas as outras coisas que eu gostaria de cuidar mas não consigo, perguntei pra minha mãe: como a minha avó deu conta? Ela teve sete!! Eu só tenho duas e tô sempre correndo atrás! Minha mãe me disse filha, pra sua avó, se as crianças estavam alimentadas, limpas e foram na escola, o trabalho dela estava feito”

Ela, que atende em sua grande maioria, mães em crise, percebe o que mudou:

“Sinto que hoje a gente se ocupa dos detalhes da alimentação mais saudável, nuances de questões de relacionamento das crianças, queremos formar boas pessoas, bons cidadãos, bons comunicadores, que tenham hábitos saudáveis de alimentação e exercício, saibam se relacionar bem com a natureza e apreciar obras de arte. Queremos que elas sejam generosas, gentis, educadas… Mas muitas vezes acho que esquecemos, como mães, de que nos mesmas temos nossos aprendizados, nossas dificuldades, o que já recebemos de carinho e aceitação e também o quanto nos faltou”

A psicóloga ressalta que o “dar conta de tudo” pode ser um péssimo exemplo pros nossos filhos… O ser real é muito mais importante, saber se aceitar, saber errar, voltar atrás e continuar trabalhando pra melhorar. O melhor exemplo é estar em busca de ser melhor enquanto sou imperfeita. Saber ouvir as suas próprias necessidades e mudar os planos pra conseguir dar conta do dia sem se sacrificar além da sua própria saúde.

Para o preparador físico Nuno Cobra Jr, que cuida da saúde integral de seus discípulos, trabalhando mente, emoção, corpo e espírito, o primeiro ponto importante é criar respiros ou lugares de cuidado pessoal durante o dia. “Muitas pessoas cuidam de tudo e todos, trabalho e filhos e não cuidam delas mesmas. Esse é o grande ponto da questão”. Pai de duas meninas, ele conhece bem a rotina puxada e exigente dessa fase da vida.

“Stress é que nem elástico. Você pode esticar, mas tem que afrouxar. Se esticar indefinidamente ele vai se arrebentar. Temos que manter nossa integridade corporal e mental e só conseguimos isso criando espaços de cuidado pessoal. Você tem que existir na sua própria agenda. Esse é o primeiro passo”, explica.

Para Nuno, até uma caminhada ajuda, mas é importante que seja algo que dê prazer. “Quem fica sempre alerta, com filhos, funções, sem pausas, fica com uma tensão constante e não consegue desligar”. Neste caso, o agravante é que a ansiedade faz com que a pessoa coma ainda mais e sua qualidade de sono piore. E sem sono, pioram as questões emocionais e mentais. “Uma coisa puxa a outra. É um ciclo vicioso e tem que ser um circulo virtuoso, equilibrando processos como sono, atividade física e a parte emocional que inclui mantras, meditação ou quaisquer recursos possíveis”.
Nuno ressalta que colocar as angústias pra fora e se entender melhor faz com que o processo seja mais fácil “Quando falamos de saúde integral estamos falando de reestabelecer essa integridade e equilíbrio mental e emocional e isso exige que o indivíduo cuide até mesmo de sua vida social, para ter pausas e respiros que o façam sentir-se bem.

Contato profissionais que participaram da matéria:

Psicóloga Natalia Lobo
11 96570 2504

Nuno Cobra Jr
Preparador físico e autor do livro “O músculo da alma, a Chave para a sabedoria corporal”

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