A coragem dos recomeços

A coragem dos recomeços

Era uma terça feira qualquer quando nossos caminhos se cruzaram.

A engenheira Cintia Grininger estava num período peculiar da vida. Tinha passado por tantas mudanças até aquele momento, que perguntei a mim mesma de onde aquela mulher tirava tanta força. Engenheira química, pós graduada em administração, com dois idiomas e um currículo de dar inveja a qualquer um, ela tinha tido uma carreira promissora até 2009, quando engravidou da Letícia.

“Sempre quis ter uma família, com todos os ônus e bônus, e tinha encontrado o parceiro perfeito pra essa empreitada… mas fiquei muito assustada com a gravidez. Significava não só a mudança radical que a maternidade traz, mas exigiria de mim uma porção de outras decisões muito importantes”

Só que uma distância de 100km a separava de seu marido.
Ela morava e trabalhava em Alphaville – e ele em São José dos Campos. Na prática, o trajeto demorava quatro horas.

Trabalhando numa multinacional que tinha, na teoria, uma política amigável com mães, percebeu que teria que se desdobrar dali em diante. Como queria morar com o marido, um dos dois teria que sacrificar o próprio trabalho. Assim, decidiu que seria ela quem deixaria o emprego para partir rumo a São José.

Sua primeira ideia foi tentar negociar uma mudança de posição ou possibilidade de trabalho remoto alguns dias da semana. Em vão.

Assim, saiu da empresa e foi morar em São Jose. E logo que pisou na cidade, percebeu que ficar em casa, sem trabalhar, a deixava ansiosa. Mesmo com os cuidados constantes com a filha. Por isso, começou a procurar emprego em todos os cantos.

Na mesma época, um novo desafio, sua mãe foi diagnosticada com câncer já em estado avançado, o que foi mais uma variável no caldeirão de sentimentos em que vivia. Se havia se livrado da culpa como mãe, naquele momento passava a incorporar a culpa por estar longe da própria mãe.

Os meses correram e seu antigo chefe ofereceu uma oportunidade: uma vaga para que trabalhasse ao seu lado num regime mais flexível. Só que a proposta, apesar de tentadora, exigia que passasse o dia longe da filha, sem sequer vê-la. “Teria que viajar pelo menos 4x na semana, algumas semanas todos os dias, significando sair de casa antes das 6 e chegar depois das 7 da noite”.

Pensou em aceitar, mas ao pesar os prós e contras decidiu que seria melhor, para ambas, que procurasse algo ali na cidade.

Nesse período, sua mãe faleceu, e o turbilhão de emoções ficou ainda mais desgovernado. Na vida profissional, a cada entrevista, uma surpresa:

“Ou me diziam que era qualificada demais, ou de menos, mesmo eu dizendo que não me importava em ter um cargo inferior ou ganhar um salário menor do que o anterior, minha prioridade era trabalhar mais próximo de casa. E em todas as entrevistas, sem exceção, me perguntaram qual seria meu esquema para deixar a minha filha. Estava na cara que havia sempre um pé atrás porque eu era mãe.

Assim, na mesma rotina até que a Letícia completasse dois anos, engravidou do Felipe. Só que, mais uma vez, a expectativa e a realidade não andavam de mãos dadas.

“Já havia meio que desistido de voltar a trabalhar, e decidi curtir aquele filho ao máximo, aproveitar a chance que me foi dada de curtir uma gravidez e um bebê sem grandes decisões a serem tomadas. Mas nossa situação financeira ficou apertada por muito tempo, e eu sentia vontade de voltar a exercer outra atividade que não a de mãe. O meu trabalho havia me definido como pessoa por muito tempo, e por mais que amasse estar com meus filhos, sentia um buraco na minha vida”

Até que certo dia foi chamada para trabalhar em uma multinacional – e próxima de sua casa. Mesmo o salário sendo bem abaixo do que estava acostumada, não se importou, precisava fazer aquele teste.


“No fundo, queria ver como se sentiria depois de 4 anos fora do mercado, com 2 filhos pequenos. As crianças passaram a ficar período integral na escola, e assim seguimos”.

Só que, para Cintia, aquele ano ficou marcado como o ano da sobrevivência – seu caçula ficava doente o tempo todo, sua filha mais velha dizia que não queria ir na escola todos os dias e ela vivia exausta.

“O trabalho não era difícil, pelo contrário, mas era extenuante ter um chefe jovem aos 40 anos e conviver com colegas com menos de 30. Me sentia ultrapassada, atrasada, e completamente vazia de ambição. Não via como competir com aquela garotada – e na verdade, nem queria”.

Depois de 1 ano, percebeu que seu lugar não era ali. E que todo aquele esforço não compensava a ausência como mãe de seus filhos. “Sentia muita falta das crianças, me sentia sobrecarregada em casa, simplesmente não parava das 5h30, quando acordava, até as 22h, quando caía exausta na cama. Não era o que queria pra mim e para a minha família. E queria muito, muito mesmo, ter um tempinho só pra mim de vez em quando, nem que fossem 15 minutos no sofá”, conta.

Só que, quando saiu do emprego, se viu diante de sentimentos controversos “Fiquei um tempão ali no estacionamento, chorando pela chance que havia desperdiçado, pela alegria de poder ficar mais tempo com meus filhos, pela incerteza do que fazer dali pra frente. Meu marido foi novamente muito parceiro nesse momento, disse que estaria ao meu lado qualquer que fosse a minha decisão”

Então, numa nova rotina, ela conseguiu que seus filhos tivessem liberdade e tempo ocioso todos os dias em casa, do jeito que queria. Mesmo assim, seu coração ainda palpitava: queria voltar a fazer alguma coisa. Só que não sabia o que.

Foi nesse momento que nossos destinos se encontraram. Eu tinha lido o e-mail com sua história e estava admirada com sua persistência. Ela era uma especialista em encontrar caminhos, uma verdadeira buscadora da felicidade.
Mas não sabia qual deveria seguir naquele momento para que sua vida tivesse o sentido que desejava.

Bastou uma conversa para que ela revelasse seu sonho secreto: escrever.

“Sei que nunca é tarde pra começar algo novo, sei também que as crianças vão crescer e vão precisar menos de mim, sei que seria ótimo ganhar algum dinheiro…. muitos clichês mas pouca ação da minha parte. Não me vejo como empreendedora, tenho muito medo de arriscar e perder dinheiro, e não tenho nenhuma ilusão de que ter seu próprio negócio é trabalhar menos – pelo contrário, acho que se trabalha muito mais.Meu sonho de verdade? Trabalhar meio período, enquanto as crianças estão na escola. Simplesmente para me sentir produtiva, ter um salário, interagir com adultos.”

Nos conectamos de imediato. E tínhamos a certeza de que aquele tanto de força não tinha ficado parado no meio de caminho. E existiam tantos a serem explorados.
Com as outras mães que reuni, acabamos formando uma espécie de família num grupo que nos servia de conforto para os desabafos, e reunia mulheres que jamais teriam se reunido de outra maneira. Tínhamos, cada uma de nós, características tão diferentes, que, como grupo, ficávamos cada vez mais fortalecidas.

Aos poucos fomos presenciando uma transformação. Como uma borboleta que sai do casulo, ela foi se fortalecendo e mostrando suas asas, até começar a bater suas asas e voar.
De início, deu vida a um blog que reunia suas duas paixões: Escrever e falar sobre viagens com crianças. No Entre Mochilas e Malinhas, a Cintia começou a mostrar que sonhos nunca morrem. E percebeu que eles estavam vivos demais dentro dela para que os ignorasse. Assim, fez cursos específicos e criou uma nova profissão que pudesse lhe satisfazer e caber dentro de sua nova rotina. Passou a fazer trabalhos de revisão.

Hoje Cintia está começando uma nova etapa de sua vida. Criou sua empresa de prestação de serviços de revisão, a Reviso Sim, e entende que todas as experiências fazem parte de sua trajetória, e integram sua jornada de coragem.

E resolveu contar sua história para inspirar outras mulheres a buscarem novos caminhos, sem nunca desistir. Porque, com dizia Martin Luther King;

“Suba o primeiro degrau com fé. Não é necessário que você veja toda a escada. Apenas dê o primeiro passo”

Palavra de quem jamais desistiu de caminhar.

6 comments

    • Gabriela Carolina says:

      Eu também estou aos prantos.
      Quero um emprego de meio período, para que eu possa voltar a ativa, coloborar no orçamento da casa e estar com meu filho.

  1. Fui colega de trabalho da Cintia, na Kodak. Ela sempre se mostrou muito competente em todas as funções que atuou. Tivemos pouco contato após o encerramento das atividades da empresa. Conheci a Cintia mãe pelo Facebook, e acompanho a evolução de seus filhos, através dos posts recheados de amor e carinho. Sua trajetória é realmente uma inspiração para muitas pessoas. Desejo a Cintia, muito sucesso nessa nova empreitada.

  2. Ana Paula says:

    Olá! Me identifiquei muito com essa história. Tenho dois filhos e passei por desafios semelhantes antes de desistir do emprego formal, como acordar muito cedo e xormir muito tarde, filhos exaustos da rotina de ir o dia inteiro na escola e o falecimento da minha mãe por câncer. Achei a história inspiradora. Pois eu me encontro nesse lugar onde quero trabalhar mas não posso sacrificar meus filhos por isso. Estou pensando em empreender, e agora com essa liberação das ctas inativas do fgts, acho q isso finalmente vai ser possível. Enfim, escrevi para mostrar q não estamos sozinhas. Apesar de tudo.

  3. Aline Feminino Novaes says:

    Um dos bons lados é enxergar que não estamos sozinhas! Escrevi no mãeatwork pela primeira e única vez há uns 5 meses, pouco tempo depois descobri que estava grávida novamente. Tenho uma filha adolescente e um sapecão de 4 anos. Qual foi minha surpresa quando no ultrassom o médico comunicou: Parabéns você terá mais dois filhos.
    Soluçava na maca, um desespero misturado com emoção.
    Precisou apenas do comunicado ao RH da empresa para que me colocassem literalmente de lado. Uma empresa a qual me dediquei muito por 3 anos e meio, viajando todos os dias de Guararema até São José dos Campos, deixando um filho em Guararema e outro em Jacareí e na qual nunca pensei em desistir. Mas precisou de pouco para me tirarem sala, mesa, computador, meus 20 liderados e todas as minhas responsabilidades. Hoje sou e me sinto uma profissional inútil.
    Um sentimento de decepção ao ver que a empresa pela qual tanto me dediquei, simplesmente não conseguiu lidar com o fato de eu estar grávida. A gravidez gemelar foi uma surpresa, eu nunca imaginei que fosse escolhida para isso, apesar de amar ser mãe.
    Hoje me pego algumas vezes chorando e angustiada com o que está por vir, pois a minha única certeza é não voltar ao trabalho em São José dos Campos, depois tiro esse pensamento e agradeço a Deus por ter me permitido viver mais uma gestação com emoção dupla!

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