Elas por elas: um resumão do evento

Elas por elas: um resumão do evento

Quando fui convidada para o painel “Mães no Trabalho”, do Elas por elas, que seria mediado pela Daniela Tofoli, diretora da Crescer, Adriana Carvalho, representante da ONU Mulheres e Florencia Fucks, pediatra do Einstein, eu me senti realmente presenteada.

São dois anos escrevendo sobre as minhas angústias no Mãe At Work, dois anos escrevendo sobre as angústias de outras mulheres. Dois anos contando histórias de mulheres que conseguiram inspirar outras mulheres, de mães que ressignificaram suas vidas, que mudaram de carreira, que escolheram cuidar dos filhos, de mães em fase de transição, de mães perdidas, que não sabiam como conduzir suas escolhas. E não foi difícil chegar à estas mães – cada uma delas chegava até mim, porque eu tinha um pouco de cada uma delas.

Essa força que nos conectava através das palavras, me fazia entender que pouco a pouco, o Mãe At Work não aplacava só uma dor coletiva, ele era o nosso ponto de encontro. Para algumas, ponto de partida, para outras, ponto de chegada. E na maioria das vezes, ponto de transição.

Mas era ali que nos encontrávamos.

Então, por mais que eu não me sentisse tão qualificada pra falar ao lado de pessoas super importantes (como disse bem a Tais Araujo – todas nós temos a síndrome da impostora), eu sabia que no meu discurso tinha uma força. A força de todas as mulheres que eu já tinha representado através das minhas palavras. A força das mães que eu tinha escutado, ou presenciado o momento de virada. E também tinha o mais precioso: a minha experiência pessoal. Como cada uma tem a sua.

Só que chegar num evento desse porte, apresentado pela Glória Maria, com mulheres do parlamento, diretoras das principais revistas femininas do país, líderes de grandes movimentos, CEO´s das maiores empresas do mundo, me fazia querer me enfiar num buraco. Mesmo assim, topei o desafio. Afinal, que mulher não topa um bom desafio?

Antes do meu painel, ninguém mais ninguém menos que a Cecília Russo Troiano no palco. A mulher já escreveu livro há dez anos sobre a vida de equilibrista da mãe, comanda uma empresa de branding e tem pesquisa pra dar nome a tudo. Ali, senti que não havia mais nenhum dado a ser apresentado.

Então, mesmo conhecendo a realidade de todas as mães que chegam até mim, a movimentação que provocam nas empresas, a repercussão negativa e positiva destes movimentos dentro das empresas e o quanto as mães são afetadas no mercado de trabalho por conta da responsabilidade que lhe é atribuída do cuidado com os filhos, algo me dizia que não era através de dados que seria a minha contribuição. Mas resolvi esperar.

Quando entramos no painel, A Adriana deu um show sobre o trabalho que faz através da ONU, nas empresas, mobilizando-as para causas femininas. A Florência levantou questões relacionadas à saúde da família e da criança, e eu acabei com uma pergunta no colo: ‘e o cuidado?’

Naquele momento falávamos sobre o quanto o cuidado era desvalorizado. Tanto na sociedade, que menospreza o cuidador, seja ele a mãe, o pai, ou uma pessoa encarregada a estar com a criança enquanto os pais trabalham, e eu tive que relembrar a história da Janaína.

Imediatamente se fez um silêncio. Eu percebia os olhares saindo do celular em minha direção.

“Eu acho que pode haver a melhor política do mundo para a mulher, mas empresas são feitas de pessoas. E essa mentalidade precisa começar a mudar a partir das pessoas.
Eu já fui a mulher insensível que só pensava no próprio umbigo e não se dava conta que existia outra mãe me dando um suporte”.

Percebi um certo movimento de jogar o peso do corpo nas cadeiras. Tinha uma longa confissão a ser feita.

Contei da época em que voltei a trabalhar, depois da licença da Eva, como tinha negociado com a Ana Maria (Braga) poder levar a Eva comigo e com isso, ela fez um berçário pra Eva no escritório, e como isso me fazia sentir super poderosa. Eu atribuía o fato de conseguir ‘conciliar’ aqueles papéis a mim. Como se isso tivesse sido uma conquista e pudesse ser possível para qualquer mulher.

Só que para que isso desse certo, a Jana ia comigo diariamente no escritório. Como eu não conseguiria fazer reuniões com uma bebê no colo, nem digitar, ou me concentrar no trabalho, era com a Jana que ela ficava dentro do berçário, onde eu ia somente para amamentar quando ela chorava.

Aquilo parecia o mundo ideal. Às vezes tínhamos reuniões às cinco da tarde, e eu, como estava com minha filha ali, ao meu lado, dizia à Jana ‘vou ter uma reunião. Você pode ficar?’ A Janaína, com seus 21 anos, dizia timidamente que sim. Talvez ela não tivesse coragem de me dizer que precisava buscar os filhos de dois e três anos na creche.
Só sei que ficamos um ano nesse esquema, e certo dia, ela me chamou:

“Cinthia, chego muito tarde em casa e estou com saudades dos meus filhos”

Eu nem fazia ideia de que uma pessoa pudesse ter saudades de filhos ‘maiores’. Mesmo sem ficar cinco minutos do dia longe da Eva, imaginava que quando cresciam um pouquinho, tudo “voltava ao normal”.

Pois é: diante da Janaina, que não queria continuar a trabalhar de jeito nenhum e dizia que precisava de um tempo para se dedicar ao Pedro e ao Igor como mãe, eu não sabia mais o que fazer.
Decidimos colocar a Eva na escola. Já que ela já tinha um ano.

Mas não foi exatamente como eu esperava.

Todos os dias eu chorava quando chegava no trabalho. Me sentia abandonando minha filha. Um aperto constante no peito, uma sensação de que eu estava fazendo algo que ia contra a minha natureza.

Só que o que toda a sociedade quer é fazer com que você se acostume com essa dor, e volte a trabalhar. Fazer com que você acredite que ‘todo mundo faz isso’, então você precisa massacrar seus sentimentos, pra ser produtiva e bem resolvida.

E quanto mais o tempo ia passando, maior o vazio dentro de mim. Meu trabalho já parecia não fazer o mesmo sentido de antes. E, no dia perfeito de trabalho, aquele que a gente vê que foi incrível, quando cheguei em casa, entrei no banho com ela e vi que o melhor momento do dia havia sido aquele. Foi quando decidi dar uma pausa na carreira. Não sabia se seria para sempre, não sabia se seria temporária. Só sabia que eu precisava desse tempo pra me dedicar á minha filha.

Saí do trabalho, contei depois para as pessoas, e, em casa, ao lado dela, me senti um fracasso.

Era como se todas as mulheres do mundo conseguissem ‘equilibrar os papéis’, exceto eu. Era como se eu tivesse nascido com um chip diferente, e qualquer conversa que eu tinha com as pessoas, elas sempre me olhavam como se aquela necessidade de estar ao lado da minha filha, fosse um ‘problema’ meu.

Exatamente nesse momento que, em casa, entendi como as mães ‘donas de casa’, sofriam com um preconceito velado. Era como se o trabalho de casa e de cuidar fosse imprestável para a sociedade.

Na sequência, tive a Aurora, e depois veio uma crise forte. Eu não conseguia admitir que estava infeliz. Mas eu estava profundamente infeliz. Só que eu mesma tinha feito uma escolha, e tinha medo de falar que não estava feliz com aquela escolha.

Tinha ido do extremo da Cinthia profissional para a Cinthia mãe.

E ainda não tinha tido um reencontro comigo mesma.

Nos momentos de crise a gente se encontra, e foi quando nasceu o Mãe At Work, que era onde eu escrevia sobre isso, dava voz à outras mulheres e descobria quanta gente estava no mesmo barco. Tanto mães no mercado de trabalho, como mães que tinham optado por ficar em casa.

Foi bom encontrar meus pares. Foi essencial perceber quantas mães tinham passado ou passavam pelo mesmo que eu. E eu fazia o impossível para tentar movimentar essa rede e que ajudássemos umas às outras.

Neste momento, final de 2014 que resolvi assumir uma nova ‘profissão’, de ghost writer de livros, que me fazia conseguir trabalhar, de casa, com autonomia de tempo, fazendo algo que eu amava (que achava essencial, porque quando a gente é mãe, o tempo de trabalho tem que ser fazendo algo que a gente gosta. Tem que valer muito a pena trabalhar) e me possibilitando estar ao lado das minhas filhas, participando efetivamente da vida delas.
Como disse a Florencia ‘vínculo não se constrói de fim de semana’. E eu percebia a importância desse cuidado, desse olho no olho, das conversas, da presença.

Quando o painel terminou, eu via muitas mães em lágrimas. Mães que tinham ido assistir por serem seguidoras da página, mães executivas, mães que tinham optado por estar em casa, mães que sofriam com isso e nem sabia.
Essa conexão foi mágica. E a partir desse momento, muitas vieram conversar comigo, trazerem a tona suas situações, contar um pouco de suas angústias e reviverem trechos da vida.

E aí, por mais que os painéis seguintes tenham sido enaltecer as empreendedoras que tinham conseguido o primeiro milhão, ou as CEO´s que estavam no comando das empresas mais fodas do mundo, entendi que, ali, cada uma tinha o papel de levantar a sua bandeira, de levar sua mensagem. E a mistura disso tudo, com ingredientes poderosos, é que faria uma receita interessante.

No sábado os painéis trouxeram outras questões – entendi a fundo a questão da violência contra a mulher, tão bem explicada pela promotora de justiça Silvia Chakian, e pela cineasta Sandra Werneck, e exemplificada pelas palavras da Clara Averbuck e da Luiza Brunet, que tentava segurar o choro enquanto contava o caso que corre em segredo de justiça, mas que todos nós conhecemos.

Falamos, mais uma vez, de como somos julgadas. Sempre. Em todas as situações. Podemos expor nossa dor – e já vem um julgamento. Alguém sempre aponta um dedo e tenta encontrar uma razão para culpar a mulher por algo. Mesmo que seja uma violência sofrida.

Chorei nesse painel, principalmente quando a Luiza sentou atrás de mim, depois de sair do palco, e a Yasmin Brunet, sua filha, segurou sua mão, orgulhosa da mãe. Orgulhosa da coragem da mãe. Aquilo foi uma cena maravilhosa.

O painel que começou a seguir foi sobre preconceito em dose dulpa, e as falas da Nathalia Santos, do canal ‘como assim, cega?’, foram as que fizeram eu me emocionar de verdade. Negra e deficiente visual, desde criança ela tinha como base sua mãe, que mesmo sabendo que ela não enxergava, a fazia olhar no espelho e entender o quanto era especial, mesmo quando ela dizia ‘cansei de ser cega’.

Claro que todos os discursos onde havia a palavra ‘mãe’, me tocavam em especial. Esse foi na jugular.

É a mãe que dá o tom sempre. A força que ela leva adiante para os filhos, seja através do trabalho, do que representa ou do próprio discurso, é que forma seres humanos melhores. E por mais que tentemos fazer com que os homens enxerguem o quanto precisam se envolver nesses cuidados, a referência materna é forte demais para ser ignorada.

Vi a Ministra Lucinda Valois pedindo licença pros Orixás antes de começar a falar, a Bela Gil contando que estocava leite do peito no congelador por mais de dois meses pra dar pra Flor, vi a deputada Soraya Santos chamar as mulheres para a política, conversei com a Alexandra Loras, ex consulesa da França em São Paulo, e com tantas outras mulheres. Atrizes, deputadas, presidentes de movimentos, CEO´s, empresárias, apresentadoras, diretoras de revistas femininas. Cada uma com a sua causa.

No encerramento, com a Tais Araujo, Gloria Maria e Maria Ribeiro, muito foi falado sobre as transformações após a maternidade. E a Tais, que havia assistido meu painel, descreveu bem a sensação de que ‘tem que valer muito a pena sair de casa depois de ter filhos’. Dizendo que se questionava o porquê não estava no teatro com as crianças e com o Lázaro naquele dia, percebeu que estava, sim, no lugar certo. Era ali que as mudanças estavam acontecendo. Era ali que as coisas estavam sendo ditas. Era ali que estávamos transformando, juntas uma realidade.

Era ali que mulheres das mais diferentes raças, condições sociais e estilos de vida, se encontravam. E, como bem disse a Maria Ribeiro – não adianta criar um discurso para agradar o maior número de mulheres. Ou você é quem você é e fala a verdade, ou não há conexão real. Nem impacto verdadeiro, nem inspiração.
Era ali que estávamos entendendo o que era ‘elas por elas’.

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