A dificuldade de mães na tentativa de flexibilidade dentro das empresas

A dificuldade de mães na tentativa de flexibilidade dentro das empresas

Conseguir que o mercado de trabalho, líderes e pares dentro das empresas reconheçam a importância do cuidado e da construção de vínculo, depois que se tem filhos, têm sido um desafio constante para mães e pais.

Nem sempre as tentativas de negociação com a empresa são bem sucedidas porque acabam empacando justamente nas ideias Pre concebidas e preconceitos dos líderes internos que acabam vetando as iniciativas ou minando a confiança de pais e mães que tentam abrir caminhos alternativos.

“Da primeira vez que tentei negociar uma nova política dentro da empresa em que trabalhava, meus líderes me fizeram a seguinte pergunta ‘Por que eu deveria fazer isso?‘. E aí eu percebi que o que era claro para mim, era um universo a parte para eles”, confessa *Claudia, que tentou argumentar inúmeras vezes antes de decidir sair da empresa ‘Ali, a política interna não permitia que mães fossem mães. Quando saí, eles perceberam a falta que eu fazia dentro da empresa, e vieram me procurar, oferecendo uma série de ‘benefícios’. Confesso que fiquei tentada a voltar, mas já tinha montado a minha consultoria, e sou boa no que faço. Não voltei e eles finalmente entenderam ‘por que deveriam fazer isso'”

As áreas envolvidas em gerenciamento de crises ou ‘retenção de talentos’ das multinacionais ou empresas mais visionárias, já perceberam que, se não tomarem medidas práticas, ficarão pra trás. Mas ao mesmo tempo, muitas delas implementam políticas que são ‘vetadas’ por líderes internos.

“Minha líder, que também é mãe, acha que ‘licença maternidade’ já tá bom demais como política, e julga que seus filhos de 3 e 6 anos são ‘independentes’ e ‘amam a escola’. Ela diz que eu tenho problemas por não conseguir lidar com essa questão como ela, e chorar todos os dias depois de deixar meu filho de nove meses, me questionando se quero continuar nesse ritmo”, revela *Alexandra.

Para ela, seus dias estão contados dentro daquele esquema de trabalho “Eu vou mudar a dinâmica do trabalho para ficar mais tempo em casa com meu filho e fazer alguns períodos de home office. Talvez dessa forma possa provar que dá certo e que não só a empresa, como as famílias, só terão benefícios com isso”, explica.

Como disse a pediatra Florencia Fucks, no evento Elas por Elas, “vínculo não se constrói de fim de semana”. Ao responder uma pergunta da platéia que questionava o tempo de qualidade com os filhos.

“Não é pra deixar ninguém culpado, é pra despertar a consciência de que filhos precisam ser cuidados, e certos cuidados que fazem com que o vínculo seja estabelecido. É o olho no olho, é o banho, é as conversas. Não achem que delegar tudo na semana e achar que compensar no final de semana é a mesma coisa. Definitivamente, não é”, revelou.

Diante disso, muitas mulheres acabam se sentindo de mãos atadas.

“Eu sei que a minha realidade está longe de ser ideal, mas é o que consigo fazer agora. Não tenho como mudar essa realidade dentro da empresa sozinha, infelizmente”, revela *Adriana, que já tentou diminuir sua carga horária mas foi barrada por questões burocráticas dentro da empresa. “Parece que ninguém quer, de fato, fazer nada para viabilizar isso. É desgastante. E mais desgastante ainda é sair no horário pra buscar os filhos na escola e ser alvo de olhares como se eu não estivesse comprometida”.

*os nomes foram trocados a pedido das entrevistadas.

One comment

  1. Ana Carolina says:

    Cara Cinthia, sempre me questionei pelo lado humano do mundo corporativo. Essa falta de flexibilidade dentro das empresas quando o nosso trabalho resume-se em resultados. Na verdade, não entendo, se somos “medidos” por resultados, porque temos que cumprir horários, se entregamos o resultado.
    Mesmo antes de ser mãe, passei por isso para estar ao lado da minha mãe quando ela ficou doente. Na época, há mais de 10 anos, trabalhava em uma empresa pequena e familiar, e a minha gestora nunca se negou em reduzir a minha carga horária para que eu passasse mais tempo com a minha mãe. Não sei se foi uma demanda minha, pela minha posição diante da situação, uma vez que a empresa e ela(gestora) precisavam mais de mim do que eu deles. Mas essa situação gerou um certo desconforto com outros membros da equipe e da empresa. Nesse pensamento, que eu acho que o problema está na humanização do mundo corporativo, as pessoas, os trabalhadores, gestores ou não precisam rever os conceitos.
    Agora, trabalhando em uma empresa pública, mãe, dona de casa, esposa e filha, vejo que as escolhas ficam cada dia mais difíceis. A minha filha de 1 e 3 meses fica no berçário de 7:30 até às 17:30 e não me sinto culpada, sinto muita saudade dela sim, inclusive às segundas-feiras. Gostaria de trabalhar apenas 6 horas por dia, sim? Mas essa foi a minha escolha, posso mudar a minha opinião daqui um tempo. Quando a pediatra diz que vínculo não se constrói no fim de semana, entendo que temos que nos esforçar para passar horas de qualidade durante a semana sim (por exemplo; faço questão de dar jantar, dar o banho, brincar, ler e dar mamadeira antes de dormir todos os dias)e isso pode parecer pouco mas a minha geração teve mães assim e fui muito feliz. Entendi que ela trabalhava para que eu tivesse comida na mesa e uma educação de qualidade.
    Quando chegou a hora de voltar ao trabalho, conversei muito com o meu marido, e chegamos a conclusão que ela ficar no berçário tempo integral seria o melhor para ela e para nós. Na atual situação econômica do país, largar o meu emprego para investir em uma carreira diferente era inviável, que acarretaria sacrificar o acesso à uma educação de qualidade para a Clara. Sem o meu salário, não conseguiríamos pagar uma escola particular para ela.
    Mesmo quando estava grávida, passei por situações excludentes e quando retornei não foi diferente. O ambiente corporativo não é muito acolhedor, apesar de todos os benefícios oferecidos pela a empresa, falta a humanização que mencionei anteriormente. Encontramos muitos colegas providos de empatia mas a grande maioria ainda acha que se você resolveu ter um filho, lide com as consequências. Muito triste mas é a realidade.
    Sonho com um mundo corporativo que aceite as diferenças e necessidades de cada colaborador, ainda mais porque tenho uma filha e espero que ela não tenha as dificuldades que eu tive e tenho. Espero que as escolhas sejam mais suaves e a que vida fique mais doce.
    O seu trabalho dá voz a todos se encaixam em alguma situação parecida, parabéns!

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