Como pensar na morte pode salvar sua vida

Em meados de 2002 eu trabalhava como atendente de telemarketing num Serviço de atendimento ao consumidor. Era o famoso SAC, onde eu passava dez horas por dia plugada num headphone ouvindo todos os tipos de reclamações.

Se você acha difícil ouvir alguém reclamando, imagine só trabalhar em um SAC de fralda infantil. As mães ligavam literalmente pra jogar toda a merda no ventilador. Era quase uma terapia pós parto. Se o adesivo da fralda não colava, se ele descolava, se acontecia qualquer coisa diferente, era na minha e na de outras dezenas de atendentes que aquela reclamação chegava.

Mas éramos pagas para ouvir e responder aquilo que a empresa havia nos instruído a dizer.

Líamos um script, com as respostas na ponta da língua para cada uma das reclamações. E, mesmo que no final do dia minha cabeça estivesse fervendo e o horário pra ir no banheiro fosse matematicamente calculado pelo supervisor, o salário no final do mês era razoável, principalmente porque finais de semana contavam mais dinheiro no bolso, e cada minuto de hora extra era remunerado. Então, por mais que aquele não fosse o trabalho dos sonhos, porque o que eu queria era trabalhar na minha área, de jornalismo, eu sabia que os estágios na minha área eram sem remuneração ou pagavam muito pouco. Então, contava a mim mesma a seguinte mentira – ‘vou trabalhar aqui por um tempo e depois eu começo a trabalhar na minha área’.

Ás vezes eu saia do ônibus, e sentia que deixava minha alma pra fora da Central de atendimento ao consumidor.

Era como se só meu corpo entrasse, passasse aquelas dez horas ali sentado fazendo algo mecanicamente até a hora em que eu saia para ir estudar, com a mente exausta, é claro.

Vez ou outra eu comentava com alguém que aquele trabalho era chato. Mas as pessoas me diziam que trabalho não era pra ser legal. “Trabalho é trabalho”, era a resposta padrão.

Então, eu ia adiando o sonho de enfrentar um estágio na minha área e fazer o que eu gostaria. Eu queria escrever, mas escrever não dava dinheiro e eu começava a achar que trabalho era aquele lugar que a gente ganhava dinheiro – não que era feliz.

Dentro de mim algo dizia que aquela história tinha alguma coisa errada. Mas a gente vai deixando os dias e as horas passarem. É engraçado como a gente se acostuma. Mesmo com o que não nos faz bem.

E eu me acostumava com aquela rotina. Acordar as seis, entrar no trabalho às oito, sair às seis da tarde e correr pra faculdade, onde ficava até as onze.

Um certo dia, saí do trabalho e, antes de ir pra faculdade, passei em casa.

Minha mãe estranhou.
Mas em casa essa hora?

Eu tinha ido trocar o sapato. Nunca tinha feito aquilo antes, mas naquele dia tinha tido vontade de passar em casa pra trocar o bendito sapato.

Seis centímetros mais alta, saí de casa. Aproveitei, claro, pra pegar o carro da minha mãe emprestado.
E fui para a faculdade.
Quando eu saí da sala, às dez da noite, entendi o que estava sendo preparado para mim.

Era um encontro marcado com o meu destino.

Naquela noite de 5 de junho de 2002 eu ouvi um zumbido em minha direção. Parecia uma abelha, rápida e ligeira, que logo engoli.

Mas ela queimava minha boca, meu rosto. E, quando me dei conta, eu não tinha engolido uma abelha.
Meu rosto queimava porque eu tinha tomado um tiro.

Os segundos seguintes foram intermináveis enquanto passavam em câmera lenta.

As pessoas se voltando para mim, o sangue escorrendo pelo meu corpo. A correria. E uma ajuda inesperada de alguém ao meu lado que tirava a camiseta para que eu colocasse no rosto para estancar o sangue.
Eu não conseguia pensar. Só via um filme da minha vida passando, frame a frame na minha mente.

“É assim que é morrer?”, pensei. “É muito cedo. É muito cedo pra morrer. Eu não acredito que eu vou morrer assim do nada”

Quando percebi que a bala perdida não tinha atravessado minha cabeça não sabia se comemorava ou se procurava por ela.
E enquanto era levada para o hospital pelo mesmo menino que tinha tirado a camisa pra estancar o sangue, via as pessoas se referindo a mim como ‘a menina do FAF. A sigla queria dizer ‘ferimento de arma de fogo’. E isso me colocava no topo das prioridades de atendimento naquele hospital público.
Eu ouvia uma criança chorar quando me encarava e sentia que daquele dia em diante nada seria igual.

Tive a sorte, como disseram os médicos, de que a bala não foi uns centímetros para cima nem uns centímetros para baixo. A sorte de ter trocado o sapato, sabe-se lá o porquê.
E, nos dias que se seguiram, já em casa, sem poder comer, me olhar no espelho ou dormir pelo trauma, a unica coisa que eu sabia era – ‘eu não vou mais trabalhar dez horas por dia fazendo o que eu não gosto’.

Eu tinha entendido o quanto era valioso cada minuto da minha vida, e como eu poderia perdê-la num piscar de olhos. Não queria mais desperdiçar tempo. Porque sabia que tempo de vida era muita coisa – e eu estava em hora extra.

Hoje relembrando essa história, que aconteceu há quinze anos, penso na sorte que tive de ter passado por essa experiência.

Se eu não tivesse passado por isso talvez não teria saído do telemarketing, começado a trabalhar num estágio onde eu ganhava cinco vezes menos, mas que eu gostava, não tivesse namorado durante alguns anos com o tal garoto que tirou a camiseta e me levou ao hospital – e não tivesse essa história pra contar.

O fato é que, hoje, quando vejo alguém dizendo que ‘não é possível sair do trabalho X’, ‘não dá pra pensar em fazer o que gosta, porque preciso ganhar dinheiro’, ou outras inúmeras desculpas que damos a nós mesmos para não enfrentarmos as mudanças que precisamos fazer em nossas vidas, sempre fico pensando se essas pessoas têm consciência que não dá pra rebobinar a vida. Fico pensando se sabem que cada hora de suas vidas é um presente, e que, mais cedo ou mais tarde, mesmo que a gente esteja na condição mais perfeita de saúde, um fator externo qualquer pode simplesmente fazer com que a nossa existência acabe.

Tenho um amigo, o Maurício, que começa o stand up reflexivo dele justamente falando sobre o próprio velório. E ali, diante de um caixão improvisado, ele se pergunta se no dia que morrer, sua vida vai ter valido a pena.
Muita gente acha mórbido pensar desse jeito. Mas talvez quando nos dermos conta do quanto nossa vida é como um interruptor de luz que pode se apagar num segundo, consigamos ter mais consciência se estamos fazendo valer a pena o tempo que estamos vivos ou se estamos vivendo mecanicamente como robôs.

Aquele modo de vida automático, que tinha até script decorado e parecia mesmo uma vida de robô, eu deixei para trás, há quinze anos.

E hoje toda vez que estou insatisfeita com algo, me pergunto:

Se eu morresse hoje, morreria com a alma tranquila porque fiz tudo aquilo que quis fazer?

Essa é uma pergunta que me persegue. E eu talvez só saiba responder no dia da minha morte.

Enquanto ela não chega. E, ainda bem, me resta pensar na morte de vez em quando. Porque às vezes pensar na nossa morte é a única coisa que pode salvar a nossa vida.

Ninguém vive pra sempre.
Ainda bem.

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