O mercado de trabalho, as mães e as crianças

O mercado de trabalho, as mães e as crianças

Tenho uma amiga – mãe – que é super foda em todos os aspectos.
Mesmo.
Há alguns meses ela decidiu dar uma pausa na carreira porque a estafa estava inacreditável, ela quase não dormia, e tem quatro filhos pra cuidar.
Como as contas não se pagam sozinhas, em determinado momento ela decidiu que queria voltar ao mercado de trabalho – mas em outro esquema.
Claro que não foi fácil encontrar a vaga ideal, mas ela encontrou uma perfeita.
Home office, salário fixo, liberdade de horário – dentro do que sabe fazer.
Na primeira entrevista, a recrutadora estranhou o fato de uma mulher tão qualificada se candidatar para uma vaga cujo salário estava abaixo do que estava acostumada.
E perguntou a ela o porquê.
Ela pensou em responder:
‘Porque eu quero levar e buscar meus filhos na escola, quero ter tempo para eles e preciso trabalhar, mas as empresas não conseguem entender que uma mulher com tantas qualificações profissionais é capaz de se organizar e fazer aquilo que é preciso no trabalho e ter essa autonomia de tempo em casa. Então, as vagas que restam são as que teoricamente seriam para alguém menos capacitado profissionalmente’
A recrutadora acabou mudando de pergunta. Parecia não estar interessada nos ‘porquês’. E ela ficou aliviada de não ter que dizer tantas verdades.
E o mercado de trabalho segue sem entender porque tantas mulheres extremamente qualificadas e com capacidades extraordinárias estão absolutamente descrentes de que exista uma luz no fim do túnel.
Outro dia uma outra amiga, que trabalha numa multinacional, disse que a empresa estava investindo em retenção de talentos femininos. Que a empresa queria entender como segurar essa mão de obra qualificada e necessária e estavam investindo em pesquisas.
Em paralelo, um amigo – pai – disse que na empresa onde trabalha reuniu todos os homens do departamento e disse que quando for necessário levarem os filhos no pediatra, que queria vê-los acompanhando as mães nas consultas.
Ás vezes sinto que em certos lugares existe uma preocupação genuína em relação a isso.
Por hora, vejo que ainda tem muita lenha pra queimar. Por isso quando me perguntam porque escrevo aqui, respondo que eu queria mesmo que um dia não fosse preciso falar sobre isso. Nem escrever.
Mesmo que eu tenha resolvido a minha situação, à minha maneira, isso não quer dizer que eu não deva pensar na questão num todo.
Ouvi de uma mãe que seu marido se sensibilizou com a causa quando eu disse numa entrevista que tinha duas filhas e não queria que elas tivessem essa preocupação no futuro. Que não queria que elas se preocupassem, como muitas amigas se preocupam, se devem ou não engravidar, em determinado momento da vida, porque temem que seja incompatível com a carreira que escolheram seguir.
Como eles têm filhas mulheres, o alerta acendeu.
Então, quando digo que essa não é apenas uma causa feminina, digo isso porque vejo pais que estão despertando para o assunto e criando micro soluções dentro de seus ambientes de trabalho. Homens apoiando mulheres em suas escolhas, ou pelo menos olhando para a situação como um todo.
No final das contas, se aquela recrutadora tiver filhos, ela entenderia a resposta da minha amiga.
E se o ‘mercado de trabalho’ é feito de pessoas, espero que cada vez mais estas pessoas se humanizem e entendam que crianças não podem ser ignoradas como se não existissem ou precisassem de cuidados. É uma questão de sobrevivência.

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