“Como os momentos de dor mudaram a minha maneira de enxergar a vida”

“Como os momentos de dor mudaram a minha maneira de enxergar a vida”

Seu trabalho é fazer com que mulheres reconstruam suas vidas.

E de reconstruir vidas ela entende mais do que ninguém.

Como ela própria diz, sua história poderia ser contada de diversas maneiras ‘eu poderia escolher o papel de vítima ou de protagonista. Decidi ser a protagonista’.

Logo que engravidou, a notícia da gravidez não foi tão bem recebida pela empresa. Trabalhava num banco de investimentos e seu chefe não teve tanta empatia quando ela voltou de licença maternidade.

“No mesmo dia em que voltei da licença, o meu chefe me deu bom dia e tchau. Me levou pra uma salinha de reunião e me demitiu”

Ela, que já tinha desmamado seu bebê, organizado tudo para voltar a trabalhar, contratado uma pessoa para cuidar dele e mudado toda a rotina, sentiu uma frustração muito grande.

“Eu só sabia que ia sobreviver a aquilo. Mesmo que sentisse surpresa e medo, sem saber o que fazer a partir dali, entendia que o segredo era saber reagir ao que não estava no meu controle”.

Percebeu que certas coisas em sua vida não estavam em suas mãos, mas entendia que a maneira como reagiria àquela notícia, estava. Então, resolveu seguir sua intuição. Uma semana depois foi visitar alguns amigos na empresa onde tinha trabalhado durante anos. Para sua surpresa, havia uma vaga disponível bem naquele momento. Topou preencher a vaga, mesmo ganhando menos que no trabalho anterior e logo entendeu o porquê de todos aqueles acontecimentos.

“Parecia que havia algo muito maior por trás das coisas que eu estava vivendo”
, conta.

Os primeiros meses do seu filho, Victor, foram desafiadores, já que ele desenvolveu um processo alérgico que a obrigava a faltar por conta do tratamento e chegar atrasada.

“Eu tenho certeza absoluta de que na empresa que me demitiu, eu não teria essa disponibilidade e entendimento do meu gestor. E na empresa pra onde eu voltei, além de ter muito apoio e a compreensão das pessoas para quem eu trabalhava, as atividades podiam me esperar”.

Foi neste momento que aprendeu a ter gratidão. Entendeu que era necessário olhar para aquele momento com outro filtro.

“Sem a demissão eu não estaria ali, numa empresa com amigos que me acolheram e com uma gestora que entendia meu momento e me permitia viver os primeiros meses de vida do meu filho”

Os anos foram passando, Victor crescia, e Mara enfrentava outros desafios. Desta vez, no campo pessoal. Separou-se do pai de seu filho e, um mês depois, descobriu através de um telefonema anônimo, que ele estava saindo com a babá de seu filho. “Foi um choque. Pedi que ela não fosse mais até minha casa”.

A partir de então, dedicou-se ao filho e ao trabalho sem mais distrações.

Até que, alguns anos depois, teve um pesadelo que a desconcertou. “Eu via a chuva caindo, a imagem era embaçada, meu filho estava em pé flutuando na chuva e eu tinha a sensação de que meu pais haviam morrido. Acordei assustada e contei o sonho pra meus pais e pra minha amiga Ju, que sentava do meu lado no trabalho.”

Uma semana depois, recebeu um telefonema. A notícia de um acidente de carro envolvendo seus pais e seu filho.

“No primeiro momento eu não quis acreditar, me joguei no chão e gritava desesperada, acreditando que aquilo amenizaria minha dor. Alguns minutos depois uma amiga gritou comigo: Mara, seus pais já morreram, não há o que fazer, levanta dai e vai buscar seu filho”.

Nesse momento, se levantou. Sabia que não havia o que fazer em relação a morte dos pais e que seu filho estava em um hospital perto da estrada.

“Primeiro escolhi pensar que foi melhor meus pais morrerem juntos, afinal eles se amavam muito e tinham uma história de vida de muita luta e, se um dos dois morresse primeiro, o outro sofreria até morrer. Segundo, meu filho, que na época tinha 6 anos, estava todo quebrado, precisava de mim inteira e forte, por isso, decidi que seria forte e me dedicaria a recuperação dele. E por último, não me fiz de rogada e contei com toda a ajuda e apoio das pessoas que se disponibilizaram para me apoiar. Dessa forma, me blindei e “não tive tempo” de sentir toda a intensidade da tragédia pela qual eu estava passando e pude colher os bons frutos que todo momento difícil tem para nos oferecer.”

No dia seguinte do acidente ligou para uma psicóloga. “Eu sabia que não ia dar conta disso sozinha”.

Foi só um ano depois, quando a poeira baixou, que teve uma depressão reativa. E foi neste momento que entrou no universo do autoconhecimento.

“Comecei a me olhar e a enxergar a vida com muito mais amor, dando muito mais valor a cada segundo. A vida passou a fazer mais sentido, inclusive hoje eu “tenho pressa” de conquistar meus objetivos, de realizar meus sonhos porque sei que tudo pode acabar de um minuto para o outro. Além disso, mergulhei de cabeça na maternidade. Eu estava separada do primeiro casamento, morava com meus pais e atuava muito mais como irmã do que como mãe do Victor. A partir do acidente, ganhei um filho que, naquelas condições, me fez acessar a mulher forte e corajosa que eu sou, a mãe dedicada e presente que eu me tornei. Eu cresci muito e foi maravilhoso crescer. “

Nesse caminho, se deparou com técnicas terapêuticas que somadas à sua experiência de vida, a fizeram enxergar que tinha como missão ajudar pessoas a superarem seus desafios pessoais e profissionais para viverem uma vida mais leve, com mais esperança e felicidade.

Então, embarcou numa transição de carreira. Começou a estudar o processo de coach, constelação familiar, hipnose e programação neurolinguística a fundo, para atender pessoas que queriam ressignificar suas histórias de vida.

“É inconsciente quando nos colocamos no papel de vítima da vida. Não temos noção de que pode ser diferente. O que pergunto às pessoas que atendo e vivem reclamando da vida é ‘Que história você pode contar que seja uma boa história de sua vida? Onde você estará se os momentos de dor não tivessem acontecido com você? Isso é ressignificar”.

Para ela, que hoje enxerga a sua história de uma maneira positiva, temos todo o direito de reclamar, mas precisamos entender que cada sentimento traz uma ação conectada a ele.

“Se eu estou triste eu preciso colocar no meu corpo essa tristeza que estou sentindo. Se permitir ser como uma criança que chora e que pede colo. Só se liberta da dor quando se permite viver aquilo e sentir aquilo. Se a gente não se liberta, a tristeza fica ali rondando e sempre encontramos uma razão para ficar triste, porque aquela tristeza fica guardada esperando o momento de se libertar. E ai entra num processo de ansiedade e depressão. Vira um padrão emocional”.

Hoje Mara enxerga que sua missão de vida é apoiar mulheres a encontrarem pontos de guinada dentro de momentos de dor.

“Sempre vem o que a gente dá conta. Temos que aceitar que mesmo que aconteça algo devastador, temos uma razão maior para estarmos aqui e termos sobrevivido. Cuidar do meu filho me manteve viva e inteira. Sempre tem um grande porquê. Um motivo que é maior do que sofrer e ficar entregue a dor”.

Por isso, ela sempre se pergunta que história vai deixar como marca.

“Sei que tudo que eu focar vai expandir então vou focar no que eu quero de verdade. As coisas acontecem até que a gente aprenda. Meu aprendizado foi que eu posso estar no controle da minha vida, mesmo quando é incontrolável sei como posso reagir. Sempre vou escolher a melhor emoção para viver a minha vida”.

Para quem quer saber mais sobre seu trabalho:
Mara Pessanha

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