Nosso senso de proteção nos protege ou nos sufoca?

Nosso senso de proteção nos protege ou nos sufoca?

Tenho pensado muito nessa coisa de expansão e contração. A Antroposofia diz que para o ser humano ser saudável precisaria ter vivências introspectivas – em ambientes internos e expandir em ambientes externos. Só assim manteríamos um ritmo e conseguiríamos nos harmonizar internamente – e constituir nosso corpo físico, emocional e anímico. Quando temos muito estímulo fora, ficamos desorganizados internamente. Mas se não temos expansão, isso também acontece.

Então, prega-se a velha arte do equilíbrio.

Aqui em casa, percebo realmente que quando conseguimos manter esse equilíbrio entre dentro e fora, a saúde delas responde melhor. Quando ficamos muito tempo dentro (nas semanas de frio extremo que passaram), nosso sistema imunológico fica mais deprimido e a gente fica com o corpo mais frágil.

Então, respeito essa teoria antroposófica pelo simples fato que funciona pra mim e para as minhas filhas.

Tudo isso pra contar que hoje pela manhã assisti aquele documentário ‘The Wolfpack’ (disponível no Netflix), que mostra a vida das sete crianças que foram ‘protegidas’ pelos pais durante a vida toda dentro de casa, porque ambos consideravam a cidade de Nova Iorque perigosa para que as crianças saíssem na rua. E, por isso, esse pai trancava os filhos em casa para que não interagissem com o mundo.

O único que tinha a chave de casa era o pai, e como todos adoravam filmes, eles assistiam todos os filmes e os encenavam. A arte os salvava da loucura, porque era a maneira como eles se expressavam ali dentro daquela pequena tribo, num apartamento em Nova Iorque.

Isso tudo foi a vida real deles, que foram (todos os sete) educados em casa pela própria mãe. Eles contam que saiam de casa de sete a nove vezes ao ano. E em um ano específico, não saíram nenhuma vez.

Curiosamente, assisti isso na mesma semana que os noticiários mostram tantas atrocidades e coisas chocantes relacionadas à violência contra a mulher. O que nos faz sentir medo de sair de casa. Acuados pelo medo, superprotegemos nossos filhos.

Às vezes me pergunto qual o limite entre essa proteção e o cultivo exagerado ao medo.

Eu me lembro que, quando era jovem, meu pai vivia dizendo que as coisas eram ‘perigosas’. Então a gente se expunha o mínimo possível a situações de ‘risco’. No final das contas, acabei tomando um tiro justo num lugar teoricamente seguro – a saída da faculdade.

Diante de tudo isso, surge a pergunta: como criar filhos? Não existe um manual. Existem diretrizes que seguimos conforme elas vão cabendo dentro da nossa realidade, mas quem é apto a julgar o que funciona e o que não funciona para cada família? Como pegar a realidade de uma família e dizer que ela se aplica à outra, já que cada um de nós carrega seus traumas, dramas pessoais, sentimentos e angústias? Quem seria capaz de convencer aquele pai de deixar seus filhos saírem nas ruas de Nova Iorque?

Para mim é um exercício diário me fortalecer emocionalmente e me curar dos meus traumas e medos, para que eles não influenciem o comportamento das minhas filhas nem possam privá-las de viver suas próprias experiências. E eu sinceramente acho que deveriam haver mais grupos de apoio para mães e pais, para que pudéssemos trocar todos os nossos medos e impressões, principalmente no que diz respeito à criação de filhos nesses novos tempos. Porque às vezes é solitário e ficamos mesmo perdidos. Pouca gente efetivamente interage, escancarando seus medos e sombras. E aí, as crianças, sem entender nada, ficam blindadas da vida pelos próprios pais e incapazes de interagir com o mundo real.

Quando crescem, e saem de casa, percebem que aquele conto de fadas não existia. E isso traz uma angústia tremenda.
Tenho visto muitos jovens assim. Transtornados com a realidade, perdidos no mundo. E esses jovens crescem, tem filhos e a história se perpetua.

A pergunta não é só como criar crianças para o mundo. É como devemos interagir com o mundo. Como podemos nos fortalecer para termos essa segurança e confiança para entregar para nossos filhos e fazer com que eles estejam aptos a interagirem com o mundo real. Porque sempre existirão todos os tipos de ameaças.

Desde que o mundo é mundo existem crimes terríveis e desumanidade. Mas estes mesmos seres humanos que reproduzem qualquer tipo de comportamento criminoso, também foram gerados e criados por alguém que provavelmente estava preocupado com sua educação.

Como esses meninos que, superprotegidos das ‘ameaças’ de Nova Iorque, quando saíram de casa, foram vistos como a própria ameaça, e levados ao hospital psiquiátrico porque ‘não eram aptos’ a viver em sociedade.

Será que nosso senso de proteção os protege ou os sufoca? É isso que venho me perguntando nos últimos tempos. É essa pergunta que faço a você. Como não viver uma vida doentia?

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