Da tentativa de não intermediar as relações do filho com o mundo

Da tentativa de não intermediar as relações do filho com o mundo

Já faz um tempo que decidi tentar parar de intermediar a relação das minhas filhas com o mundo. Digo tentar, porque nem sempre é possível. Em todo o lugar que circulamos, os adultos – em sua grande maioria – têm a incrível capacidade de imbecilizar as crianças e tratá-las como seres limitados e incapazes de tomar qualquer tipo de decisão.

E como a minha curiosidade em observar o comportamento humano é insaciável, sempre dou um jeito de fazer com que as pessoas tentem estabelecer suas formas de comunicação com a criança.

Hoje tivemos um episódio curioso: levei Eva e Aurora para uma aula experimental de natação. Eva, que gosta de água, mal podia esperar o momento de mergulhar. Aurora, que no auge dos seus quatro anos corre ao ouvir a palavra ‘banho’, colocou o maio, e ficou atrás do vidro espiando a aula da irmã.

Eis que chega a professora.

– Qual é o seu nome?

Como de costume, ela nem se deu ao trabalho de virar o rosto para ver quem estava falando com ela. Continuou assistindo a irmã na piscina.

– Qual é seu nome? – tentou a moça pela segunda vez.

Sem resposta, ela disse:

– Ih, acho que ela não gostou de mim.

Enquanto observava aquele diálogo infantilizado da professora, e a expressão da minha filha, fiquei muda. Não sou daquelas mães que sorri e diz ‘fala filha, ela está falando com você’. Simplesmente observo e respeito a reação dela, sem impor as minhas vontades.

– Mamãe, qual é o nome dela?

– O nome dela é Aurora.

– Ah, Aurora. Que nem o da princesa Aurora?

Controlei o impulso de responder que não era por causa do da princesa, mas deixei ela tentar fazer com que a conversa fluísse.

Minutos antes, Aurora havia decidido que não faria a aula experimental:

– Não vou fazer aula caranguejo, nem peixe, nem tubarão. Nadinha. De jeito nenhum – decretou.
Então, quando a professora perguntou se ela queria entrar na piscina, Aurora virou-se para ela e disse ‘não’.

A professora, insistente, entrou na água e disse ‘nossa, tá quentinha!’

Aurora virou-se e disse:

– Não gosto de água quente

Ela colocou a água numa caneca, deu para Aurora colocar os dedinhos e disse

– Ah, acho que nem tá tão quente.

Aurora parecia reagir. Sozinha, decidiu sentar na borda da piscina sem buscar qualquer olhar de aprovação da minha parte.

Fiquei ali, duvidando da capacidade da professora em convencê-la entrar na piscina, mas observando a relação entre as duas.

Então ela estendeu o braço e pediu que minha filha fosse no seu colo. Quase reagi, dizendo para ela respeitar a vontade da menina, mas para minha surpresa, Aurora se jogou nos braços dela. E defendê-la não fazia parte do pacote ‘não interferir’. Quando me dei conta, ela já estava na água, por vontade própria.
Depois de trinta minutos ininterruptos de saltos, mergulhos e tentativas de nadar, acabou a aula.

Fomos para o vestiário e eu evitei qualquer comentário. Entramos no carro e perguntei:

– Aurora, você disse que não ia fazer a aula. Por que mudou de ideia?

A resposta não poderia ser melhor.

– Porque ela me seduziu!

Eu e Eva rimos. Suspirei. Ainda bem que não intermediei a relação.

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